O sociólogo
Octavio Ianni, 77, morreu em 04/04/04 em São Paulo. Ele sofria
de câncer havia mais de um ano e estava internado no hospital Albert
Einstein desde 29/03/04. O enterro está previsto para as 15h de
05/04/04 no cemitério municipal de Itu, cidade em que ele nasceu.
Discípulo de Florestan Fernandes (1920-1995), Ianni pertenceu a
uma geração de professores da USP decisiva na consolidação
dos estudos sociológicos voltados ao conhecimento do país.
Ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, foi pesquisador assistente
do autor de "A Revolução Burguesa no Brasil" (1974).
A questão racial e, depois, os problemas do desenvolvimento foram
temas muito abordados por Ianni -assuntos, de resto, que marcam essa segunda
geração de estudiosos do país, cujos precursores
foram os historiadores Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda,
entre outros.
Ianni estudou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade
de São Paulo. Obteve o título de mestre em 1956 com a dissertação
"Raça e Mobilidade Social em Florianópolis".
De 1958 a 1965, participou com jovens professores da USP da leitura coletiva
de "O Capital", hábito que ficou conhecido como o "Seminário
Marx".
Marxista por formação, Ianni foi um crítico severo
da era FHC e da gestão Lula, cujo governo qualificou em entrevista
concedida em março de "nave de enlouquecidos" que "não
se debruçou sobre os problemas nacionais".
Segundo Fernando Henrique, Ianni "era uma pessoa muito íntegra
e será sempre reconhecido na sociologia brasileira. Escrevemos
dois livros juntos e fomos pesquisadores do Florestan. Depois ele saiu
da universidade e chegou a ser meu aluno por um período".
As obras publicadas com Fernando Henrique são: "Cor e Mobilidade
Social em Florianópolis: aspectos das relações entre
negros e brancos numa comunidade do Brasil meridional" (1960); e
"Homem e Sociedade: leituras básicas de sociologia geral"
(1961).
Para Gabriel Cohn, professor de ciência política da USP,
a obra de Ianni representa um "jogo entre os grandes panoramas, como
desenvolvimento e globalização, e o espaço que dedicava
a analisar a malha fina das relações sociais".
"O grande Ianni está nos pequenos ensaios", disse Cohn,
que destacou uma publicação do início dos anos 60
chamada "O jovem radical", na qual Ianni aborda a crise e a
metamorfose dos jovens.
"Um dos pontos mais marcantes foi o seu estudo sobre a sociologia
da cor. Ele contribuiu decisivamente para o entendimento do desenvolvimento
brasileiro e, mais recentemente, para a análise da globalização",
afirmou o economista Paul Singer, atual secretário de Economia
Solidária do Ministério do Trabalho e um dos fundadores
do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), em 1969,
ao lado de Ianni.
A tese de doutorado de Ianni, em 1961, chamada "O Negro na Sociedade
de Castas", ilustra o interesse pela questão racial nesse
período. Dois anos depois, o objeto de análise muda para
o desenvolvimento. Escreveu "Industrialização e Desenvolvimento
Social no Brasil", em 1963, e "O Estado e o Desenvolvimento
Econômico no Brasil", em 1964.
Novos temas
Em 1969, foi aposentado compulsoriamente da USP em razão do AI-5.
Transferiu-se para a PUC e, depois, para a Unicamp (Universidade Estadual
de Campinas), onde lecionava até 15 dias atrás.
A partir da década de 90, dedicou-se à análise dos
efeitos da globalização. Publicou, entre outros, "A
Era do Globalismo" (1996).
Recebeu em 1993 o Prêmio Jabuti por "A Sociedade Global"
(1992). Em 2001, "Enigmas da Modernidade - Mundo" (2000) lhe
rendeu o Prêmio da ABL (Academia Brasileira de Letras), na categoria
ensaio, e o Troféu Juca Pato, de Intelectual do Ano, que foi concedido
pela União Brasileira de Escritores.
"Ianni era um espírito livre e aberto para compreender o novo.
Ele era uma das mais fortes expressões da ciência social
latino-americana", declarou Ricardo Antunes, professor de sociologia
da Unicamp, onde trabalhou com Ianni mais de 15 anos.
O sociólogo, que era viúvo, deixou duas filhas e cinco netos.
Fonte: Folha de São Paulo dia 05/04/2004 - Folha
Brasil
Homenagem
do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, da Federação
Nacional dos Sociólogos – Brasil e da Confederação
Nacional das Profissões Liberais – CNPL ao Professor Dr. Octávio
Ianni em 4 de abril de 2004 |