Elisabeth da Fonseca Guimarães,
Universidade
Federal de Uberlândia
O objetivo desta exposição é relatar a experiência
de inclusão da disciplina Sociologia no vestibular da Universidade Federal de
Uberlândia e, em decorrência, na seleção do PAIES (Programa Alternativo de
Ingresso ao Ensino Superior). Para explicar como aconteceram essas mudanças é
preciso que se tenha clareza de que as mesmas só foram possíveis porque
estiveram sedimentadas em duas questões objetivas e que se tornaram
determinantes em todo esse processo.
A primeira, de ordem legal, está expressa no
Parágrafo único do Art. 195 da Constituição Mineira, promulgada em 21/09/89 e
assegura que “o Estado deverá garantir
o ensino de Filosofia e Sociologia nas escolas de segundo grau”. A segunda,
de ordem científico/acadêmica, está voltada para a importância do conhecimento
que o aluno deve trazer consigo para a universidade. Será preciso esclarecer um
pouco mais sobre as duas questões para entender como as coisas aconteceram e
como foi possível vencer essa batalha.
A questão legal, que diz respeito a obrigatoriedade
da Sociologia no, então, 2o grau, foi uma luta que começou
muito antes da própria elaboração da Constituição Mineira, travada por
Sociólogos e Filósofos em todo o Estado de Minas Gerais. Nesse período, houve
um movimento muito forte em prol da volta dessas duas disciplinas nos
currículos. A Universidade Federal de Minas Gerais foi sede de vários encontros
com profissionais da área. Professores de Filosofia e de Sociologia de todo o
Estado foram convidados a participar. Foram elaboradas estratégias de ação, de
modo a envolver as universidades, os departamentos e cursos de Ciências
Sociais, os professores do 2o e 3o graus.
Foi preciso, também, ganhar a adesão dos burocratas, dos políticos, dos
deputados. Fazer com que houvesse um movimento organizado, maciço, capaz de
convencer aos constituintes que a inclusão da Sociologia e da Filosofia no 2o grau estava inserida
em um projeto maior de sociedade, situado muito além do próprio espaço
curricular reivindicado por essas duas
disciplinas. A obrigatoriedade desses conteúdos remetia a possibilidade
de se poder trabalhar objetivamente com o despertar de uma prática cidadã nas
salas de aulas do 2o
grau.
Nesse período de elaboração da Constituição Mineira,
os profissionais das áreas de Ciências Sociais e Filosofia lutaram de modo
incansável com as armas que possuíam, ou seja, a fala, a escrita e a vontade
política de ver novamente essas disciplinas no currículo de 2o
grau. Essa batalha foi vencida em 21de setembro de 1989. A constituição
promulgada estabeleceu, no ART. 195, PARAGRAFO ÚNICO, que “o Estado deverá garantir o ensino de Filosofia e Sociologia
nas escolas públicas de 2o grau”. A inclusão das duas
disciplinas foi regulamentada pela Secretaria de Estado da Educação e, já em
1990 elas voltaram às sala de aula com carga horária definida. A partir desse
ano, os currículos do 2o grau das escolas públicas mineiras
só seriam aprovados se constassem Sociologia e Filosofia. Não importava a série
em que elas seriam ministradas, o fechamento da grade curricular só seria
possível com um horário específico para cada uma delas. Ter essas disciplinas
no currículo das escolas públicas passou a ser lei em Minas Gerais.
Os primeiros anos foram os mais problemáticos. Não
havia pessoal habilitado para lecionar Sociologia. Os colégios particulares nem
ao menos tomaram conhecimento dessa determinação; fizeram mesmo questão de
ignorá-la. Em Uberlândia, o Departamento de Ciências Sociais promoveu
encontros, cursos de extensão e de especialização. Os professores escreveram
textos didáticos, organizaram coletâneas. O objetivo era preparar minimamente
os profissionais da rede estadual. O próprio curso de Ciências Sociais, criado
em 1996, foi uma resposta à essas dificuldades.
Esta explicação, ainda que abreviada do aspecto
legal, é necessária, uma vez que foi a
partir dessa obrigatoriedade que se tornou possível lutar pelo aspecto científico/acadêmico
que incluiu a Sociologia nos exames vestibular e PAIES da Universidade Federal
de Uberlândia.
Em 1994, a UFU promoveu um fórum avaliativo de seu vestibular. O que estava
sendo colocado em pauta era o próprio significado do vestibular. Foram convidados
professores de todos os departamentos e cursos da Universidade; representantes da Superintendência Regional de
Ensino, das escolas públicas e particulares, dos cursos pré-vestibulares.
Nesse fórum, havia uma preocupação muito grande com
o aluno treinado para as habituais “pegadinhas”, ou seja, com aquele aluno
capaz de dominar a técnica de responder as perguntar com pouco conhecimento do
assunto e muita “maldade” para decifrar as respostas. As próprias questões, até
então, estavam sendo muito técnicas. Foi feito um levantamento das necessidades
prementes dos alunos ingressantes:
- O
que esse aluno deveria saber?
- Que
tipo de habilidades deveria dominar?
As respostas foram unanimes. Seria preciso uma
formação ética, social, reflexiva, ligada diretamente e especificamente ao
campo das humanidades. Ao ingressar na Universidade, o aluno deveria ser capaz
de falar, escrever, se expressar claramente, criticamente. O domínio dessas
habilidades foi apontado como uma necessidade. O significado que se desejava
conferir ao novo vestibular foi discutido exaustivamente.
Ficou definido que as questões deveriam priorizar a
preparação que o 2o grau, hoje Ensino Médio,
oferecia ao aluno. Deveria refletir os conhecimentos recebidos nos três anos
desse nível de escolaridade e não o contrário. Todas as disciplinas nele
ministradas deveriam estar representadas no exame, ser avaliadas com peso
equivalente, de modo a evidenciar, concretamente , qual foi o preparo que o
aluno recebeu.
A participação de representantes das áreas de
Humanas na organização e condução do fórum foi decisiva. Perseverantes e incansáveis,
nos quase quatro anos de debate, foram eles que seguraram a discussão,
acreditando, com convicção, que a mudança do vestibular não podia acontecer sem
que houvesse, também, uma mudança nos conteúdos e na forma como seriam
avaliados. Eles explicitaram com clareza as principais dificuldades
apresentadas pelos ingressantes e que
iam de encontro ao novo significado que se pretendia conferir ao vestibular.
Este novo significado reclamava um aluno conhecedor dos problemas da sociedade
em que vive, capaz de refletir e de se posicionar frente a realidade de seu
tempo.
Durante o desenrolar desse fórum, muitos
participantes desistiram. Dentro da própria universidade, professores das áreas
de exatas e biomédicas abandonaram o debate por não concordarem com as
discussões. Os representantes das escolas particulares e dos cursinhos foram os
grandes vilões da história. Foram eles que mais lutaram contra a mudança, principalmente
pelos custos que ela iria acarretar, como, por exemplo, aumento do número de
professores e de horas aulas, o que, sem dúvida, comprometia a rentabilidade
dos negócios.
Durante a realização do fórum do vestibular, foi
elaborado um documento sobre cada uma das disciplinas que deveria ser incluída
nos exames: o que se esperava de cada uma delas. Em janeiro de 1997, a
Universidade Federal de Uberlândia realizou seu primeiro vestibular com as novas disciplinas: Sociologia,
Filosofia e Literatura. Esta inclusão significou a vitória de mais uma batalha,
principalmente porque as provas da primeira e segunda fases têm o mesmo número
de questões das demais disciplinas, com o mesmo valor, sem discriminação.
Um outro processo importante que teve sua semente
germinada no fórum do vestibular foi o processo seletivo do PAIES, (Programa
Alternativo de Ingresso no Ensino Superior), iniciado em 1998. Buscando os
mesmos objetivos, ou seja, avaliar aquilo que o aluno aprendeu no Ensino Médio, o PAIES também incluiu a Sociologia em seu
elenco de disciplinas. Em cada uma das três etapas, são avaliados os conteúdos
referentes àquela série do Ensino Médio em que o aluno se encontra. A primeira turma de alunos
aprovados pelo PAIES já está na universidade.
Hoje, a Sociologia faz parte não apenas do
vestibular da Universidade Federal de Uberlândia mas, principalmente, dos
currículos das escolas da cidade e da região, interessadas em que seus alunos
ingressem na universidade. As escolas particulares, que antes nem ao menos tomaram conhecimento do ART. 195,
que instituiu a obrigatoriedade da disciplina no 2o grau,
todas têm Sociologia em seu currículo com uma carga horária muito superior a
das escolas públicas. A maioria delas têm a disciplina nos três anos do Ensino Médio.
As principais dificuldades encontradas no início da
implantação, aos poucos estão sendo sanadas. Pela diferença de qualidade entre
as provas dos primeiros vestibulares e as atuais, percebemos claramente que os
professores do Ensino Médio têm se preocupado em ministrar a disciplina com
critérios de cientificidade. As respostas escritas pelos candidatos estão cada
vez mais elaboradas e denotam que está havendo cuidado acadêmico com o conteúdo
da disciplina, sinalizando para um nível mais apurado de conhecimento e, conseqüentemente, um melhor aproveitamento do aluno.
De 1997 até hoje, já foram realizados 7 vestibulares
com provas específicas de Sociologia. Da parte dos professores do Departamento
de Ciências Sociais, existe uma atenção muito grande tanto em relação as
possíveis dificuldades, originárias do conteúdo sociológico que deve ser
dominado pelos alunos do Ensino Médio, como em relação às constantes ameaças,
advindas de grupos mais conservadores localizados no interior da Universidade.
E de proprietários de escolas particulares, que teimam em querer priorizar o
caráter técnico e quantitativo dos exames.
A garantia do espaço da Sociologia nos concursos de vestibular e PAIES da Universidade Federal
de Uberlândia é, para nós das Ciências Sociais, uma luta que precisa ser
travada todos os dias, em todos os momentos da vida escolar. Faz parte dela o
embate diário com profissionais das áreas de exatas e biomédicas da própria
Universidade e com os demais setores da sociedade, tais como, cursinhos pré
vestibulares, donos de escolas de Ensino Médio, vestibulando de outras cidades.
Reclama o envolvimento daqueles que acreditam ser a Sociologia uma disciplina
necessária e indispensável para a construção de uma mentalidade coletiva
cidadã.