A SOCIOLOGIA
NO ENSINO MÉDIO
Condições e
perspectivas epistemológicas
“O conhecimento sociológico
espirala dentro e fora do universo da vida social, reconstruindo tanto esse
universo como a si mesmo como uma parte integral deste processo.” Anthony Giddens
Mário Bispo dos Santos
Texto produzido, sob orientação da professora Fernanda Sobral, na disciplina Ciência, Tecnologia e Sociedade do programa de Pós Graduação do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília.
Mário Bispo dos Santos é mestrando em Sociologia pela UnB e professor de Sociologia na Secretaria de Educação do DF
INTRODUÇÃO
Desde
o início da década de 80, parlamentares, estudantes, professores, entidades da
sociedade civil vêm lutando para que a Sociologia seja incluída como disciplina nos currículos do
Ensino Médio, dada a sua importância na formação da cidadania.
Finalmente, agora, ao término da década de 90, os
Parâmetros Curriculares Nacionais, com base nas Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM), Parecer 15/98 do Conselho Nacional de
Educacão, estabelecem que os conceitos,
procedimentos e atitudes provenientes da Geografia, História, Filosofia e da
Sociologia devem constituir a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias.
Tendo em vista a concretização das diretrizes e parâmetros citados, algumas unidades da
federação efetivaram reformas curriculares que incluem a Sociologia como
disciplina obrigatória.
Com certeza, tais modificações vêm ao encontro das
reivindicações de todos aqueles que
lutam pelo ensino da Sociologia. No caso do DF, a Sociologia deixa de ser uma
disciplina constante da parte diversificada do currículo, com carga de 2 (duas)
horas semanais no 3º ano, para se tornar uma disciplina obrigatória nos três
anos, com carga de 2 (duas) horas semanais.
Salientamos,
entretanto, que não tem sido fácil o processo de efetivação da Sociologia no
Ensino Médio. No caso Rede Pública do DF, os professores de Sociologia, têm enfrentado dificuldades de toda ordem:
-
administrativas: número excessivo de
turmas, em geral, 16 turmas por 40h de jornada, o que por um lado, dificulta a
realização de atividades criativas, o acompanhamento dos alunos e uma avaliação
diagnóstico e por outro lado, gera desgaste físico e mental.
-
Políticas: a resistência de
professores e alunos, capitaneada pelo Sindicato dos Professores, em função da
diminuição da carga horária de outras disciplinas.
-
Pedagógicas: domínio precário dos
conceitos básicos das ciências sociais e dos conceitos da própria reforma
curricular tais como, tecnologia, competência e habilidade,
interdisciplinaridade, contextualização, trabalho projetos.
Do nosso ponto de vista, existe uma compreensão clara de
que Universidade pode contribuir de
diversas formas para a superação dessas dificuldades. Em primeiro lugar, ela
pode participar da melhoria da qualificação dos professores de Sociologia,
promovendo cursos de atualização e revitalizando o currículo da licenciatura em
Ciências Sociais em virtude da Reforma do Ensino Médio. Em segundo lugar, a
Universidade pode incentivar estudos e pesquisas, em nível de graduação e
pós-graduação sobre o próprio ensino de Sociologia.
Nesse sentido, pretende-se com esse trabalho trazer elementos para uma melhor compreensão
sobre as questões relativas às condições epistemológicas em que se desenvolve
o trabalho do professor de Sociologia.
Somente para
fins expositivos, a análise das referidas condições epistemológicas estará
dividida em duas partes. Uma primeira parte, na qual, se aborda as questões
relacionadas mais às condições
internas/cognitivas ou didático-epistemológicas, isto é, questões de ordem
microssociológicas relacionadas à organização da escola, ao tratamento dos
conteúdos, à aplicação de métodos de ensino, aos processos de avaliação e
especialmente, questões relacionadas às representações sociais de ciência, de
conhecimento escolar e de Sociologia no
interior da escola. E uma segunda parte, na qual, se faz a análise das questões
ligadas mais às condições externas/macroestruturais de caráter sócio-epistemológica,
ou seja, questões de ordem macrossociológicas relacionadas às mudanças no mundo
do trabalho, à implementação de
políticas educacionais e em especial, as questões relacionadas ao modo
de produzir e distribuir conhecimento
nas sociedades contemporâneas que podem afetar as representações sociais dos
professores.
2.0
CONDIÇÕES INTERNAS DE CARÁTER DIDÁTICO-EPISTEMOLÓGICO
O
trabalho do professor de Sociologia tem como referência os documentos
curriculares oficiais, por isso, iniciaremos nossa análise a partir das
disposições colocadas para o ensino de Sociologia nos Parâmetros Curriculares
Nacionais
Tendo
em vista a preocupação com o domínio de tecnologias, expressa nas Diretrizes
Curriculares Nacionais, os PCNEM (MEC, 1999, p.85) propõem que a Sociologia, em conjunto com a Ciência
Política e a Antropologia, permita ao
educando desenvolver as seguintes competências e habilidades
Representação
e comunicação
•
Identificar, analisar e comparar os
diferentes discursos sobre a realidade: as explicações das Ciências Sociais,
amparadas nos vários paradigmas teóricos, e as do senso comum.
•
Produzir novos discursos sobre as
diferentes realidades sociais, a partir das observações e reflexões realizadas.
Investigação e
compreensão
•
Construir instrumentos para uma melhor
compreensão da vida cotidiana, ampliando a “visão de mundo” e o “horizonte de
expectativas”, nas relações interpessoais com os vários grupos sociais.
•
Construir uma visão mais crítica da
indústria cultural e dos meios de comunicação de massa, avaliando o papel
ideológico do “marketing” enquanto estratégia de persuasão do consumidor e do
próprio eleitor.
•
Compreender e valorizar as diferentes
manifestações culturais de etnias e segmentos sociais, agindo de modo a
preservar o direito à diversidade, enquanto princípio estético, político e
ético que supera conflitos e tensões do mundo atual.
Contextualização
sócio-cultural
• Compreender as transformações no mundo do
trabalho e o novo perfil de qualificação exigida, gerados por mudanças na ordem
econômica.
• Construir
a identidade social e política, de modo a viabilizar o exercício da cidadania
plena, no contexto do Estado de Direito, atuando para que haja, efetivamente,
uma reciprocidade de direitos e deveres entre o poder público e o cidadão e
também entre os diferentes grupos.
A idéia central é que o domínio dessas competências permitirá ao
educando investigar, identificar,
descrever, classificar e interpretar/explicar
os fatos relacionados à vida social,
e assim, instrumentalizá-lo para que possa decodificar a complexidade da
realidade social.
Tanto nos PCNEM, como no Currículo da
Educação Básica do DF, ressalta-se que as citadas competências e habilidades
devem ser trabalhadas por meio de projetos de investigação, oficinas de
aprendizagem, programas de estudos, tendo como ponto de partida os princípios
conceituais e metodológicos desenvolvidos pela Sociologia Compreensiva, pela
Sociologia Funcionalista e pela Sociologia Crítica. Cabe entretanto observar
que
“Ao se tomar os três
grandes paradigmas fundantes do campo de conhecimento sociológico – Karl Marx,
Max Weber e Emile Durkheim –, discutem-se as questões centrais que foram
abordadas, bem como os parâmetros teóricos e metodológicos que permeiam tais
modelos de explicação da realidade. No entanto, a grande preocupação é promover
uma reflexão em torno da permanência dessas questões até hoje, inclusive
avaliando a operacionalidade dos conceitos e categorias utilizados por cada um desses
autores, no que se refere à compreensão da complexidade do mundo atual.” (MEC,
1999, p.72)
A proposta,
portanto, ao enfatizar a formação de competências, aponta para a superação de
uma certa tradição escolar na transmissão dos conteúdos das ciências. Tais
conteúdos deixam de ser fins para se tornarem meios de formação do
educando.
A questão que se coloca é a seguinte: em que condições
epistemológicas e pedagógicas essa proposta está sendo implementada, ou seja,
-
Como os professores
concebem o conhecimento escolar?
-
A partir da
compreensão que os profissionais têm da Sociologia, como desenvolvem seu
trabalho?
-
Para os professores, há diferença
significativa entre os conteúdos e métodos de ensino utilizados no curso de
Ciências Sociais na Universidade e os conteúdos e métodos que eles utilizam no
Ensino Médio.
Para melhor situarmos essas questões, vamos
pensá-las a partir do terreno epistemológico que se desenvolve a prática
pedagógica. Na análise a seguir, será utilizada uma tipologia com base nos
estudos dos professores Fernando Becker e Lúcia Helena Alvarez Leite, como
também, nas observações do autor deste texto, enquanto professor e coordenador
de atividades referentes ao ensino de Sociologia na Rede Pública do DF.
Ressalta-se que essa tipologia deve ser encarada de um ponto de vista
weberiano, isto é, um instrumento de medida que não pode ser confundido com o
real.
De modo geral, a prática dos professores
expressa as seguintes concepções epistemológicas:
-
Concepção cientificista.
A maioria dos professores desenvolve suas atividades com
base na convicção epistemológica de que o conhecimento escolar é constituído
estritamente pelos conteúdos acumulados
e sistematizados pelas ciências. Nessa
perspectiva, cabe aos professores, guardiões desse conhecimento pronto e
acabado, transmiti-lo aos desprovidos do saber científico, os alunos.
Essa concepção epistemológica tem
implicações éticas visto que o detentor dos conteúdos científicos, também, é
posto como detentor da verdade e portanto da capacidade de decidir e julgar
soberanamente sobre todas as questões pedagógicas: horários, enturmação,
aprovação e reprovação dos alunos, etc.
A concepção cientificista, também tem
implicações na estrutura temporal da escola. Numa estrutura escolar
fundamentada no processo de transmissão dos conteúdos, o tempo de aprendizagem
é fragmentado e linear. Assim, um conteúdo A
precede um conteúdo B, que por sua
vez precede um C. O primeiro
bimestre precede o segundo, a terceira série precede a quarta e assim por
diante.
Nessa organização, o tempo é dividido em
dias letivos, bimestres, semestres, séries, etc, de acordo com as necessidades
de estruturação dos conteúdos e não de acordo com as necessidades e ritmos de
aprendizagem dos alunos. Como conseqüência dessa temporalidade etapista,
aqueles que não dominarem os conteúdos nos prazos estabelecidos deveram repetir
o processo.
No ensino de Sociologia, a concepção
cientificista manifesta-se sob a forma de duas tendências. Uma tendência, na
qual, os professores organizam suas atividades baseadas na transmissão de
conceitos como: classes, interação social, cultura, estratificação social,
mobilidade social, etc. E outra tendência, na qual, os professores preocupam-se
em transmitir os fundamentos das principais correntes teóricas: funcionalismo,
marxismo, etc.
Temos também na prática dos professores de
Sociologia tentativas de articulação dessas duas tendências, como por exemplo,
exposição acerca da compreensão dos teóricos clássicos sobre os processos de
mudança social ou a discussão da
relação indivíduo e sociedade a partir dos conceitos de fato social em
Durkheim, ação social em Weber e classe social em Marx.
Em qualquer das tendências, a lógica
etapista sempre está vertebrando o processo pedagógico. Na abordagem
conceitual, por exemplo, primeiro aborda-se o conceito de agrupamento social,
depois, os tipos de agrupamentos, os
processos de mobilidade social em cada um deles, etc. Na abordagem teórica, primeiro, discute-se contexto histórico de
surgimento da corrente teórica, principais sociólogos, questões fundamentais,
interlocutores, etc.
Ressalta-se que no ensino de Sociologia,
na perspectiva cientificista, os instrumentos metodológicos construídos pelas
correntes teóricas dificilmente são citados e quase nunca são exercitados.
Assim, os alunos recebem informações sobre os conceitos de solidariedade em
Durkheim e classe, grupo de status e grupos de poder em Weber, todavia,
raramente recebem informações sistemáticas acerca do instrumental que esses
estudiosos utilizaram na construção desses conceitos.
Enfim, na perspectiva cientificista, a
ênfase não é na forma como a Sociologia
se constrói, mas sim, no que a Sociologia construiu, ou seja, a Sociologia feita. Em outras palavras, a
preocupação não está centrada no processo de produção sociológica, mas sim, no
resultado dessa produção.
-
Concepção espontaneísta
Um grupo
de professores, em reação ao caráter autoritário, conteudista e excludente da
concepção anterior, procura desenvolver atividades pedagógicas, nas quais, o
centro do processo não é o professor, mas o aluno. Acreditam que os interesses,
os temas e as problemáticas do cotidiano do aluno devam constituir os conteúdos
do conhecimento escolar.
Essa
perspectiva epistemológica também tem desdobramentos éticos e organizativos.
Como são os alunos os portadores do conhecimento, cabe a eles definirem as normas
de organização da sala de aula, os princípios de convivência social, os temas
que serão estudados, os métodos de avaliação e os ritmos de aprendizagem.
Na prática dos
professores de Sociologia, o esponteneísmo é comum. Os professores costumam organizar
as atividades do bimestre em torno dos interesses dos alunos. As temáticas são
escolhidas basicamente em duas fontes. Uma primeira fonte é o cotidiano dos
alunos e suas problemáticas: uso de drogas, gravidez na adolescência, relações
familiares, violência, etc. Outra fonte é constituída pelas temáticas hoje em
discussão na Antropologia e na Sociologia que interessam aos alunos: diferenças
de gênero e orientação sexual, diversidade cultural, diferenças raciais,
religiosidade, etc.
Os alunos
utilizam como material de pesquisa
dessas temáticas principalmente:
jornais, revistas e vídeos. Secundariamente realizam entrevistas e pesquisam em
livros e artigos científicos das Ciências Sociais. As informações coletadas são
expostas em seminários e feiras.
Ressalta-se
que na visão espontaneísta, o ensino de Sociologia enfatiza a pesquisa e assim,
ainda que precariamente procura possibilitar ao aluno a apropriação do
instrumental metodológico desenvolvido nas Ciências Sociais. Todavia, trata-se
de uma apropriação totalmente descontextualizada visto que não propicia ao
educando um estudo dos princípios filosóficos e sociológicos que fundamentaram
a elaboração dos instrumentos de pesquisa.
-
Concepção globalizante
A
professora Lúcia Leite (1997.p.5) afirma que as duas concepções expostas,
aparentemente diferentes, têm algo em comum:
“Uma visão dicotômica do que seja conhecimento escolar, acabando
por fragmentar um processo que não pode ser fragmentado. O que para os
professores tem sido visto como dois aspectos dicotômicos, na verdade,
constitui-se em um único processo, global e complexo, com várias dimensões.”
Numa perspectiva globalizante, os conteúdos científicos
e os conteúdos postos pelos alunos estão articulados num mesmo processo
pedagógico e assim constituem o conhecimento escolar. Não há como descartar o
conhecimento científico visto que ele não é fruto do acaso, mas sim, da própria
ação do homem no processo de transformação de sua realidade. Nem tão pouco há
como negar os interesses e proposições dos alunos, pois, sem eles, desaparece a
possibilidade de uma escola atraente e criativa.
Uma parcela, ainda pequena de professores, tem procurado
desenvolver atividades dentro dessa visão epistemológica, principalmente, por
meio de projetos de trabalhos. Os projetos são desenvolvidos a partir de
questões significativas para a turma que podem ser sugeridas pelos alunos,
pelos professores ou pela própria conjuntura social. As questões postas no
projeto geram necessidades que farão com que os alunos se defrontem com os
conhecimentos científicos como instrumentos culturais para entendimento da
realidade e não como conceitos abstratos desprovidos de significação.
Essa visão do processo de produção do conhecimento na
escola, como as duas anteriores, também
tem implicações éticas e organizativas. Assim, o planejamento das atividades é construído pelo professor e pelos
alunos com base em algumas questões:
-
O
que já sabemos acerca da questão que pretendemos investigar?
-
O
que queremos saber?
-
Como
faremos para buscar as respostas para nossas perguntas?
-
Quando
faremos?
No desenvolvimento
do projeto, temos atividades desenvolvidas
pelos alunos como, entrevistas, pesquisa bibliográfica, pesquisa de
campo e atividades organizadas pelo professor, como por exemplo, a organização
de módulos de aprendizagem com a função de aprofundar e sistematizar alguns
conteúdos relevantes para o projeto.
No processo de síntese, alunos e professores sistematizam os conceitos, valores,
competências e procedimentos
desenvolvidos, identificam questões novas passíveis de serem abordadas
em novos projetos, avaliam o processo e fazem encaminhamentos.
No
ensino de Sociologia, alguns professores têm ensaiado o trabalho com projetos.
Geralmente, os projetos têm como detonadores temas relativos aos problemas
colocados pela realidade sócio-econômica brasileira, por exemplo, a relação
desemprego e criminalidade numa dada cidade.
No desenvolvimento de um projeto como
esse, os alunos buscarão dados na
delegacia, na administração, no noticiário e em outras fontes que informem
melhor acerca da questão. O professor por sua vez, buscará construir um módulo
de aprendizagem que aprofunde e sistematize o conceito de criminalidade com
base nas teorias e pesquisas produzidas pela Sociologia.
O trabalho com projetos, no ensino de Sociologia, enfrenta
dentre outras, duas dificuldades. A primeira relacionada à participação dos
professores de outras disciplinas. Geralmente, os projetos geram necessidades
de aprendizagem que demandam uma resposta interdisciplinar, todavia, vivemos
ainda, no ensino médio, em um ambiente disciplinar e compartimentalizado.
A
outra dificuldade está relacionada à utilização dos conteúdos da Sociologia. Os
conteúdos trabalhados no processo de instrumentalização estão fundamentalmente
relacionados aos conceitos e teorias sociológicas. Assim, os alunos não
utilizam os instrumentos metodológicos fornecidos pelas Ciências Sociais que contribuiriam
tanto no momento de planejamento, como no momento de pesquisa em si. Como
conseqüência, os alunos, em muitos trabalhos, tratam as questões de forma
superficial e os dados de forma assistemática.
No projeto citado sobre a relação
desemprego e criminalidade, caso os alunos tivessem em mente, por exemplo, as
orientações de Durkheim quanto ao tratamento dos fatos sociais, o principio de
causalidade weberiano e as categorias abstrato e concreto, mediato e imediato marxistas, certamente, teríamos um trabalho
mais sistemático na formação de procedimentos e atitudes
Enfim a consolidação do trabalho com projetos em Sociologia requer uma ampliação do entendimento do que seja conteúdo sociológico.
3.0 CONDIÇÕES EXTERNAS DE CARÁTER SÓCIO-EPISTEMOLÓGICO
Inicialmente é importante lembrar que o
professor de sociologia está atuando com uma disciplina que foi estabelecida no
currículo do Ensino Médio, a partir de uma reforma curricular que reflete a
mudança de uma concepção do papel social da educação centrada na cidadania,
hegemônica na década de 80, para uma
educação centrada na competitividade. (Sobral, 1999)
Mudança essa que está relacionada às
transformações no mundo do trabalho e na forma de produção e apropriação do
conhecimento. Esta foram desencadeadas
nas últimas décadas e também têm implicações na forma de produção do
conhecimento sociológico.
A seguir, serão estudadas essas mudanças e
suas implicações para educação e para a Sociologia com base nas contribuições
de Gibbons, Giddens, Castells e outros.
3.1 A
EMERGÊNCIA DE UM MODO REFLEXIVO DE
PRODUÇÃO E APROPRIAÇÃO DO CONHECIMENTO E A REFORMA DO ENSINO MÉDIO
No capítulo dedicado ao novo
Ensino Médio nos Parâmetros Curriculares Nacionais é afirmado claramente que as
reformas curriculares no Brasil e na América Latina se pautam nas constatações
sobre
“as mudanças no conhecimento e seus
desdobramentos no que se refere à produção e às relações sociais de modo geral”
(MEC, 1999, p.14)
Conforme
o documento, tais mudanças decorrem da chamada terceira revolução
técnico-industrial, na qual, o conhecimento tem um lugar central nos processos
de desenvolvimento econômico, organização do trabalho e das relações sociais.
Ainda
conforme o documento, na sociedade dos anos 90, o crescimento do volume de
informações em conseqüência das novas tecnologias coloca como parâmetro para a
formação dos cidadãos um ensino voltado não para acumulação de conhecimentos,
mas sim para “a preparação científica e a capacidade de utilizar
as diferentes tecnologias relativas às áreas de conhecimento.”
Assim, a Reforma
do Ensino Médio, bem como, a reforma da Educação Profissional estão postas
como mecanismos de inserção competitiva do país na nova
ordem sócio-econômica mundial fundada numa nova forma de produzir e
distribuir conhecimento.
Conforme Castells
no livro “A Sociedade em Rede”, essa nova forma de produção e apropriação do
conhecimento tem seu surgimento relacionado à reestruturação capitalista
empreendida nos anos 80 como resposta à crise econômica decorrente do
esgotamento do modelo keynesiano de crescimento desencadeada nos anos 70. Para
compreendermos essa mudança, é necessário termos em mente algumas categorias
utilizadas por Castells, no livro citado,
no que se refere a sua análise da produção capitalista.
Para Castells
(1999, p.34), as sociedades têm sua organização e dinâmica estruturadas por
relações historicamente determinadas de poder, experiência e produção. Com base
em categorias marxistas, Castells define produção como um processo, no qual, os
homens transformam a matéria (natureza,
a natureza modificada pelo homem, a natureza produzida pelo homem e a própria
natureza humana) em um produto, em parte consumido e em parte acumulado para
investimentos determinados socialmente. A relação entre os homens e a natureza
envolve o uso de meios de produção com base em energia, conhecimentos e
informação. Para o autor, a tecnologia é justamente, a forma específica dessa
relação.
De acordo com
Castells, as regras relativas à apropriação,
distribuição e uso do excedente constituem modos de produção que, por
sua vez, definem relações sociais de produção, determinando a existência de
classes num certo contexto histórico. No século XX temos dois modos de
produção:
-
o
capitalismo, modo de produção definido pela separação entre produtores
e meios de produção em função da propriedade privada; o que possibilita aos capitalistas determinarem os princípios de
apropriação do excedente. Esse modo de produção busca a maximização de lucros,
ou seja, o aumento do excedente acumulado pelos proprietários dos meios de
produção.
-
o
estatismo, modo de produção definido pelo controle estatal do
excedente, portanto, um controle
externo à esfera econômica exercido pelos detentores do poder estatal. Tal modo
de produção objetiva ou objetivava a maximização do poder, ou seja, via aumento
da capacidade militar e ideológica do aparato burocrático buscava impor seus
objetivos sobre parcelas cada vez maiores de indivíduos.
Na perspectiva teórica desenvolvida por Castells, o modo de
produção, portanto, determina a forma de apropriação e uso do excedente. O
nível do excedente por sua vez é determinado pelo grau de produtividade. O
nível de produtividade está relacionado ao modo de desenvolvimento da produção
que nada mais é do que os procedimentos técnicos utilizados pelos
trabalhadores, utilização de meios de produção; com aplicação de energia e
conhecimento para transformarem matéria em produto. O modo de desenvolvimento é
estabelecido pelo elemento incrementador da produtividade. O autor cita três
modos de desenvolvimento:
-
o
agrário, cuja incrementação da produtividade deriva do aumento da
quantidade de trabalhadores e de terras
cultiváveis.
-
o
industrial, no qual o aumento da
produtividade depende da introdução de novas fontes de energia e da
descentralização do uso de energia nos processos de produção e circulação.
-
o
informacional, cuja fonte de produtividade encontra-se na tecnologia
de geração de conhecimento, de processamento de informação e de comunicação
de símbolos.
Ressalta-se que o
industrialismo era o modo de desenvolvimento sobre o qual surgiu e se
desenvolveu o capitalismo e o
estatismo. Todavia, esse modo de
desenvolvimento, na década de 70, esgotou sua capacidade de possibilitar
incrementos de produtividade e em conseqüência tivemos o desencadeamento de
crises, tanto no modo de produção capitalista como no estatista. As reformas
econômicas iniciadas nos anos 80, em países organizados sob os dois modos de
produção buscavam justamente o estabelecimento de mudanças na base técnica da
produção.
Para Castells, a
Perestroyka estatista falhou devido, entre outros fatores, às
limitações políticas do regime soviético e a Perestroyka capitalista obteve
êxito no sentido de aumentar a produtividade. A reestruturação capitalista teve
como metas: aprofundar a lógica capitalista de busca de lucros nas relações
capital/trabalho, aumentar a produtividade do trabalho, globalizar a produção, circulação e mercados e
direcionar o apoio estatal para ganhos de produtividade e competitividade das
economias nacionais. Tais reformas somente tiveram êxito porque houve uma mudança na base técnica da
produção capitalista de um modelo industrial para um modelo informacional de
desenvolvimento.
O autor esclarece
que a centralidade dessa mudança não reside no conhecimento, mas sim, na
aplicação do conhecimento para a geração de novos conhecimentos e dispositivos
de processamento e comunicação de informações, em um ciclo de realimentação
cumulativo entre inovação e seu uso que se tornou o elemento dinamizador da
produtividade do modo de produção capitalista. Dessa forma, a informação
tornou-se o produto principal do processo produtivo.
As informações são aplicadas na produção de
dispositivos de processamento e
comunicação de informações, isto é, são aplicados na produção de tecnologias de
informação constituídas por um conjunto de tecnologias em microeletrônica,
computação(hardwares e softwares)
telecomunicações, radiodifusão, optoletrônica e engenharia genética.
Tais tecnologias são modificadas na medida em que os usuários (consumidores, técnicos e trabalhadores) aprendem a
utilizá-las, aprendem a aperfeiçoá-las e por meio delas aprendem comunicar suas
experiências relativas a esse processo de aprendizagem. As informações geradas
nesse processo de aprendizagem são utilizadas na produção de novas tecnologias.
O campo de produção de programas de computador está
repleto de exemplos do processo descrito acima. Usuários avançados
constantemente sugerem para as empresas algumas medidas tendo em vista a
superação das falhas de segurança e
aperfeiçoamento de seus programas. Outros usuários trabalham no melhoramento de
programas com códigos de fonte abertos, como exemplo, o sistema operacional
Linux. Outros criam programas que contribuem para o desenvolvimento do próprio
processamento de informações, como por exemplo, programas de comunicação instantânea como o ICQ, navegadores, players, etc.
Conforme Castells,
as tecnologias da informação não são simplesmente ferramentas a serem
aplicadas, mas processos a serem desenvolvidos. Usuários e criadores tornam-se
a mesma pessoa. Segue-se uma relação muito próxima entre os processos sociais
de criação e manipulação de símbolos (a cultura e a sociedade) e a capacidade
de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas). Tais mudanças
trazem uma nova relação entre o homem e máquinas visto que
“... pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção,
não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo...Assim, os computadores,
sistemas de comunicação, decodificação e programação genética são todos amplificadores
e extensões da mente humana. O que pensamos
e como pensamos é expresso em bens, serviços, produção material e
intelectual, sejam alimentos, moradia, sistemas de transporte, saúde e
educação” (1999, p.51).
Dessa forma, temos
um processo de reflexividade do conhecimento que envolve de um lado, atores que
têm seus conhecimentos transformados e
ampliados mediante o uso de tecnologias
da informação e do outro lado, tecnologias de informação que são modificadas em
função dos novos conhecimentos que são gerados no processo de sua
utilização.
Como vimos, esse
modo reflexivo de produção de informação é a fonte de incremento de produtividade no novo modo de
desenvolvimento do capitalismo. Essa
mudança na base técnica da produção capitalista gera uma demanda cada vez maior
por conhecimento científico por parte das empresas visto que ele é fundamental
na melhoria de competitividade. Em função dessa demanda vemos surgir o que
Michael Gibbons e colaboradores (1994) denominam um novo modo de produção do
conhecimento científico caracterizado pela:
-
Aplicabilidade. No modo
tradicional, newtoniano, o conhecimento é produzido tendo em vista os
interesses cognitivos do cientista, como por exemplo, a consolidação de uma
linha de pesquisa no contexto da disciplina que atua. No novo modo, a produção
do conhecimento visa atender demandas e problemas colocados pelas
práticas sociais.
-
Diversidade
e flexibilidade institucional. No modo tradicional, , o conhecimento tem como
espaço de produção a universidade. No novo modo de produção, nós temos
conhecimento sendo produzido em diversos lugares: academia, empresas, ONG’s,
centros de pesquisa e nos próprios locais de trabalho. Muitas vezes, temos
pesquisadores dessas diversas instituições, articulados por meio das
tecnologias de informação numa rede de grupos de pesquisa que buscam atender
demandas específicas.
-
Transdisciplinaridade.
Justamente em função das demanda postas, teremos em cada grupo pesquisadores
com formações diversas. Os problemas colocados no contexto do novo modelo de
desenvolvimento são complexos e exigem respostas rápidas, por isso, a
necessidade de pesquisadores de várias áreas de conhecimento.
-
Reflexividade
social. Um conhecimento produzido num contexto de aplicação e diversidade
institucional se difunde pela sociedade visto que a sua produção envolve não só
diversos tipos de pesquisadores como também não pesquisadores interessados nos
problemas colocados pela realidade social. Assim, temos grupos e movimentos participando ou querendo participar, direta
ou indiretamente, da produção e da
apropriação do conhecimento; o que
implica por sua vez em constantes modificações nesses processos.
As visões de
Castells e Gibbons sobre a questão da informação na sociedade contemporânea
aproximam-se da visão de Giddens, ainda que o primeiros autores enfatizem as dimensões material e
organizacional da produção do conhecimento e o segundo enfatize a dimensão
sociológica de sua apropriação.
Para Giddens, nas
sociedades modernas, o conhecimento científico consolidado em sistemas
especializados (as práticas dos chamados profissionais, a especialização
objetivada em máquinas e mecanismos monetários, etc) possibilita que os
sujeitos estejam constantemente examinando suas práticas sociais.
Um exemplo dado pelo autor (1993, p.39) é
relativo às práticas sexuais. Ele cita relatórios de pesquisas, como o
relatório Kinsey, que quando foram divulgados provocaram debates, novas
investigações e mais debates que se tornaram parte de um domínio público amplo
e que serviram para modificar opiniões de leigos sobre as próprias práticas,
envolvimentos e preferências sexuais. Assim, tais pesquisas contribuíram para
acelerar a reflexividade das práticas sexuais habituais e cotidianas
Um
outro exemplo (1993, p.42)está
relacionado à reflexividade do corpo acelerada pela invenção da dieta. A dieta está ligada a uma ciência: a
Nutrição. Ela situa a responsabilidade pelo desenvolvimento e a aparência
diretamente nas mãos do seu proprietário.
O que o indivíduo come , mesmo entre os mais carentes, torna-se uma
questão reflexivamente impregnada de seleção dietética. O que se come é uma
escolha do estilo de vida, influenciado e
construído, por um número imenso de livros de culinária, tratados
médicos populares, guias nutricionais.
Dessa forma, enquanto Castells e Gibbons
ressaltam o processo reflexivo de
produção do conhecimento; Giddens ressalta a sociedade reflexiva onde o
conhecimento tem papel fundamental.
Pode-se inferir que são dois lados de uma mesma situação. De um lado, nós temos
sujeitos (trabalhadores, técnicos, pesquisadores, usuários) que ao utilizarem
as tecnologias de informação produzem e renovam informações que contribuem para
modificar essas tecnologias e do outro lado, informações constantemente
renovadas e veiculadas por também renovadas tecnologias que alcançam e
transformam indivíduos nos mais diversos lugares e grupos sociais.
Como vimos, a
emergência desse modo de produção e apropriação reflexiva do conhecimento, nova
base técnica de reprodução do capital, está relacionada à reestruturação capitalista que envolve, em
maior ou menor grau, empresas em diversos países.
No Brasil, desde do início da década de 90,
há um esforço dos governos e empresários no sentido de adaptação do
país a esse processo de reestruturação, por meio da ampliação da abertura
econômica ao capital estrangeiro, privatização de empresas estatais,
desregulamentação das atividades produtivas, flexibilização da legislação
trabalhista e mudanças nos métodos de
organização e gestão trabalho
Conforme Frigotto (1994, p.61), nesse
contexto, conceitos pontes foram criados e outro ressignificados, tais como :sociedade do conhecimento, qualidade total,
formação flexível e polivalente, educação geral e abstrata, empregabilidade,
policognição, integração, flexibilidade, competitividade, currículo por
competências e habilidades, etc.
Esses conceitos se concretizam em programas
e métodos que visam otimizar tempo, energia e espaço, isto é, objetivam
aumentar a produtividade: programas de reengenharia, descentralização
produtiva, terceirização e em proposta educacionais que visam a formação de um
novo trabalhador com capacidade de abstração, criatividade, responsabilidade,
lealdade e disponibilidade para colocar seu potencial comportamental e
cognitivo à disposição da empresa.
Interessante notar como esses conceitos
tornam-se cada vez mais hegemônicos nos discursos sobre os processos de
formação do trabalhador embasando a idéia de educação para competitividade no
momento atual.
Assim, nós vemos jornais de grande
circulação produzirem cadernos que trazem informações que objetivam contribuir
para a empregabilidade do leitor. Nesses cadernos geralmente temos testes que
medem a criatividade, adaptabilidade, liderança, etc., modelos para a
elaboração de currículos e cartas, dicas de cursos, orientações para
entrevista, análises das perspectivas do mercado de trabalho.
Percebe-se também, a presença crescente
desses conceitos nos cursos de qualificação profissional. Aqui no DF, o Projeto
Saber, no período de 1995-98, tinha uma proposta padrão para os diversos
cursos, na qual, os alunos deveriam se apropriar de habilidades gerais,
habilidades específicas e habilidades de gestão. Tais habilidades eram
trabalhadas no estudo de temas como: princípios e técnicas comportamentais,
entrevista, currículo, relações interpessoais no trabalho, administração do
tempo, qualidade no atendimento, qualidade total e qualidade do empresário de sucesso (grifos nossos)
Os
conceitos citados fundamentam também o discurso do empresariado em defesa de
reformas na educação. Todos os dias, assistimos empresários e seus
representantes, por meio de artigos, reportagens, programas de TV, afirmarem
que a inserção competitiva do Brasil no mercado mundial depende de mudanças
relativas à qualidade e à gestão da educação básica e profissional.
É nesse contexto
de reestruturação capitalista,
ressignificação de conceitos e discursos em favor da educação que se
desencadeou a partir de 1997, uma reforma do ensino médio e da educação
profissional. Essas reformas visam, justamente à formação de trabalhadores
polivalentes e com capacidade de abstração e à formação de cidadãos/usuários
capazes de lidar de uma forma reflexiva com
as tecnologias das linguagens e códigos, das ciências da natureza e das
ciências humanas, área na qual, está inserida a Sociologia.
Portanto, a
Sociologia é inserida novamente no currículo do ensino médio, em um contexto
de educação com ênfase na competitividade, no qual, essa ciência, em conjunto
com Antropologia e Política, deve contribuir com suas tecnologias para que o
educando desenvolva competências e habilidades relacionadas por exemplo, aos
processos de gestão e planejamento do trabalho.
Há, então, uma
concepção epistemológica bastante definida acerca do conhecimento sociológico que deve ser trabalhado na
educação básica média: a Sociologia como tecnologia. A seguir, essa concepção
será analisada e criticada, a
partir da visão de Giddens sobre o papel da Sociologia, no contexto das sociedades contemporâneas marcadas pela
alta reflexividade do conhecimento.
3.2 A
SOCIOLOGIA NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO REFLEXIVO
Nossa
análise terá como ponto de partida a justificativa dada pelos mentores da
Reforma do Ensino Médio para a associação das
Ciências Humanas com suas tecnologias, visto que tradicionalmente nos
currículos, tal associação somente era feita com as Ciências da Natureza.
Nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), a
presença das tecnologias na área de Ciências Humanas é justificada pela
compreensão ampla da tecnologia como produto e processo, assim como, pela distinção
entre as
“tecnologias duras produzidas pelas Ciências da Natureza
configuradas em ferramentas e instrumentos materias e as tecnologias ideais, isto é, referidas mais diretamente ao pensamento e as idéias, tais
como as que envolvem processos de gestão e seleção e tratamento de informações,
embasados em recortes sociológicos”. (1999, p.22-23)
Ainda, como justificativa para inserção
das tecnologias na área de Ciências Humanas, os PCNEM apontam que a essa área
cabe:
“Construir a reflexão sobre as relações
entre a tecnologia e totalidade cultural, redimensionando tanto a produção
quanto à vivência cotidiana dos homens. Inclui-se aqui o papel da tecnologia
nos processos econômicos e sociais e os impactos causados pelas tecnologias
sobre os homens, a exemplo do tempo fugido ou eternamente presente, em
decorrência da aceleração do fluxo de informações.” (1999, p.23)
Tendo em vista essa visão das tecnologias nas ciências
Humanas, o Parecer 15/98 (MEC, 1999,
p.168) estabelece que os conceitos, procedimentos, técnicas e valores
provenientes da Geografia, Filosofia, História e Sociologia, disciplinas
constitutivas da área de Ciências Humanas e suas tecnologias, devem ser
trabalhados de forma interdisciplinar e contextualizada, com o objetivo de
contribuir para que o educando desenvolva as seguintes competências e
habilidades:
-
“Entender
os princípios das tecnologias associadas ao conhecimento do indivíduo, da
sociedade e da cultura, entre as quais as de planejamento, organização, gestão,
trabalho em grupo, trabalho de equipe, e associa-las aos problemas que se
propõem resolver”.
-
“Entender
o impacto das tecnologias associadas às ciências humanas sobre sua vida
pessoal, os processos de produção, o desenvolvimento do conhecimento e a vida
social”
-
“Aplicar
as tecnologias das ciências humanas e sociais na escola, no trabalho e outros
contextos relevantes para sua vida.”
-
“Entender a importância das tecnologias contemporâneas de
comunicação e informação para o planejamento, gestão, organização, fortalecimento
do trabalho em equipe”
A compreensão
descrita acima contraria a percepção que a maioria das pessoas tem, arragaida
no senso comum, de que tecnologia é necessariamente um conhecimento
concretizado em artefatos como computadores, motores, televisores, etc.
Certamente essa visão comum presente também nas mentes dos educadores dificulta
a implantação da reforma.
A professora Juana
Sancho da Universidade de Barcelona, em entrevista ao Jornal do Brasil (1999),
denuncia que na realidade mais que senso comum, essa visão está impregnada de
uma ideologia, na qual, o conceito de tecnologia é sobreposto pelo conceito de
tecnologia de informações, isto é, um conjunto de aparatos, artefatos ou
produtos (computadores, redes telemáticas, internet, televisão) para produzir,
receber, tratar e transmitir informação.
Para a professora,
em primeiro lugar, tal situação dificulta a problematização e discussão dos
fundamentos políticos e éticos de tecnologias que de fato têm mais influência
sobre a vida das pessoas, como as tecnologias organizativas (o taylorismo, o
fordismo, o toyotismo), sistemas
políticos e econômicos, sistemas organizativos de escolas, empresas, hospitais
etc, as tecnologias simbólicas (criação e utilização de signos e símbolos) e as
biotecnologias (bioengenharia, manipulação genética de animais e plantas).
Em segundo
lugar, hierarquiza os conhecimentos e
reforça uma divisão de poder, trabalho e riqueza, na qual, certas formas de
saber, valores e visões de mundo são priorizadas em detrimento de outras.
Desconsidera portanto, que qualquer tecnologia, seja ela artefatual, simbólica,
organizativa ou biotecnológica, surge em um determinado contexto para tentar
resolver um problema que se coloca para um cientista em seu laboratório, numa
empresa em seu departamento de pesquisa e desenvolvimento, numa indústria de
guerra ou um profissional no seu trabalho cotidiano. Desconsidera enfim
que qualquer indivíduo é produtor e consumidor
de tecnologia, de conhecimento em ação.
Enfim, para
Sancho é uma concepção que ao reduzir a
tecnologia à dimensão material encobre as relações entre saber e poder, tanto
no âmbito das políticas econômicas e sociais como no âmbito do cotidiano das
pessoas no trabalho, na escola, no hospital, etc. Assim, desse ponto de vista,
a associação entre as Ciências Humanas e suas Tecnologias pode significar, em
tese, um avanço na crítica à ideologia
descrita acima.
Postas as possibilidades e as
dificuldades quanto compreensão do estatuto das tecnologias das Ciências
Humanas, uma questão mais específica nos é colocada: quais são as
possibilidades e limites epistemológicos da Sociologia como uma tecnologia?
Dito de outro forma, existe conhecimento produzido na Sociologia que tenha
alguma aplicabilidade?
Cabe notar que esses questionamentos acerca da
praticidade da Sociologia, não são somente feitos por pesquisadores e
epistemólogos. Assim temos, os alunos no Ensino Médio que freqüentemente
perguntam para que estudam Sociologia? Os amigos e parentes dos graduandos em
Ciências Sociais que os interrogam: por que a escolha desse curso? O que o
sociólogo faz de prático?
Interessante
ressaltar que os ouvintes de Anthony Giddens na BBC de Londres, constantemente lhe questionam: a Sociologia pode nos ajudar nas nossas decisões diárias ou ela é
somente uma teoria interessante?
Giddens (1999)
responde que a
Sociologia é um assunto com implicações práticas importantes para nossa vida
visto que ela pode contribuir para uma crítica social, uma reforma da prática
social, de diversas formas:
-
ela
melhora os conhecimentos relativos às circunstâncias sociais em que estamos
envolvidos e possibilita maiores chances de controlarmos os problemas
vinculados a essas circunstâncias.
-
ela
possibilita o aumento da sensibilidade cultural, permitindo a construção de
políticas baseadas em valores culturais divergentes.
-
A
partir da Sociologia nós podemos investigar as conseqüências intencionais ou
não de adoção de certos programas políticos particulares. A pesquisa
sociológica fornece uma ajuda prática no assessoramento de iniciativas
políticas.
-
O
mais importante, a Sociologia propicia um clareamento dela mesma que permite a
grupos e indivíduos compreenderem e alterarem suas próprias condições de vida.
No mais, sabendo sobre o porque nós agimos e como nós fazemos certas coisas em
sociedade, provavelmente nós seremos capazes de influenciar nosso próprio
futuro.
Inclusive para Giddens, em concordância
com Sancho, as Ciências Sociais no mundo moderno têm mais influência na vida
cotidiana das pessoas do que as Ciências da Natureza, visto que a revisão
constante das práticas sociais com base no conhecimento sobre essas práticas,
hoje, faz parte da dinâmica e estrutura das relações sociais.
Um exemplo dado pelo autor (1991, p.47) é
relativo aos conceitos da Economia
como capital, investimento, mercados e indústria que fazem parte da vida
econômica moderna. O cidadão não precisa dominar esses conceitos, mas todos que
utilizam uma conta bancária demonstram um conhecimento implícito e prático
destas noções. Para o autor, estes e outros conceitos das ciências sociais
constituem ativamente o que é comportamento e informam as razões pelas quais
ele é empreendido.
Para Giddens, a Sociologia tem um papel central nesse processo de reflexividade
visto que ela é a análise mais ampla sobre a vida moderna. Um exemplo dessa
amplitude dado pelo autor é a forma como as estatísticas utilizadas pelas
Ciências Sociais refletem sobre o cotidiano das pessoas. Assim, qualquer
indivíduo num país ocidental que decide se casar, tem essa decisão , balanceada
e refletida pelo conhecimento acerca das altas taxas divórcios. Tal
conhecimento pode afetar a própria decisão de se casar, bem como decisões sobre
considerações relacionadas – regime das propriedades. Dessa forma, para o autor,
“ a consciência dos níveis de divórcio não é a simples apreensão dos dados. Ela é teorizada pelo
agente leigo de maneira impregnada pelo pensamento sociológico. Desta forma,
virtualmente todos que consideram o casamento têm uma idéia de como as
instituições familiares vêm mudando – posição social e no poder do homem e da
mulher, alteração nos costumes sexuais. O casamento e a família não seriam o
que são hoje se não fossem inteiramente sociologizados e psicologizados.”
(1991, p.49)
Conforme Lash
(1999), de fato para Giddens, a Sociologia é o sistema especialista fundamental
da modernidade, visto que uma parcela crescente da população tem acesso – de
uma forma mais ou menos diluída – a conceitos sociológicos como um meio de
reflexão sobre as práticas sociais e que a própria modernidade é
intrinsecamente sociológica. E mais, a Sociologia de fato reestrutura
reflexivamente seu objeto, o sujeito social, que aprende assim, a pensar
sociologicamente.
Giddens adverte,
entretanto, que um maior conhecimento sobre a vida social não significa um
maior controle sobre a mesma, como ocorre na relação Ciências Naturais e
natureza. Para o autor isto aconteceria se a vida social fosse separada do
conhecimento ou se esse conhecimento pudesse ser filtrado nas razões para a
ação social, produzindo passo a passo aumentos na racionalidade.
Percebe-se,
portanto, na perspectiva epistemológica do autor, uma crítica a uma certa visão
instrumentalista da Sociologia como conhecimento aplicado, tendo como modelo as tecnologias das Ciências da
natureza. Para Giddens (1991, p.23), tal visão está amparada nas teorias
clássicas. Numa primeira versão, o conhecimento sociológico mantém uma relação
instrumental com o mundo social de tal forma que pode ser aplicado de uma
maneira tecnológica par intervir na vida social. Numa segunda versão, a
marxista, as descobertas das Ciências Sociais são importantes no processo de se
fazer a História, desde que não sejam aplicadas a objetos inertes, mas
filtradas pelo auto-entendimento dos agentes sociais. Trata-se, para o autor, de uma visão mais sofisticada
do que a primeira, todavia, sua visão de reflexividade é demasiada simples visto
que a relação entre a Sociologia e seu objeto deve ser entendida numa
hermenêutica dupla, na qual,
“O conhecimento sociológico espirala dentro e fora do
universo da vida social, reconstruindo tanto esse universo, como a si mesmo,
como uma parte integral deste processo.” (1991, p.:24)
Para o autor, (1991,p.59), o processo de aplicação do
conhecimento sociológico diferencia-se do processo das Ciências da Natureza
pela sua reflexividade hermenêutica e por mais três fatores:
1.
Poder diferencial.
A apropriação do conhecimento não ocorre de maneira homogênea, mas é com
freqüência diferencialmente disponível para aqueles em posição de poder.
2.
O papel dos valores. As
mudanças na perspectiva derivadas de inputs
de conhecimento têm uma relação móvel com as mudanças nas orientações de
valores.
3.
O
impacto das conseqüências não pretendidas. O conhecimento sobre a vida
socialtranscende as intenções daqueles que o aplicam para fins transformativos.
Na perspectiva epistemológica de Giddens, portanto, a
Sociologia não desenvolve conhecimento acumulativo da mesma maneira que as
Ciências Naturais. Não há então, acumulação de conhecimento de um lado, e
controle crescente do desenvolvimento social do outro. Para o autor, a questão
fundamental que não foi percebida pelos teóricos clássicos da Sociologia é a
seguinte:
“Não é
que não exista um mundo social estável a ser conhecido, mas, é que o
conhecimento deste mundo contribui para seu caráter instável ou mutável.” (1991, p.51)
Assim, a elaboração teórica de Giddens acerca do papel da Sociologia na
modernidade contribui em muito para o entendimento das possibilidades e condições epistemológicas de um conhecimento
sociológico aplicado no ensino médio que não seja meramente instrumental e
mecânico. A compreensão da aplicabilidade do conhecimento como um processo de
apropriação reflexiva nos coloca a viabilidade de uma Sociologia interessante
para os alunos, na medida em que permita a análise de seus projetos de
construção do “eu” e ao mesmo tempo,
fundamenta o exame e a mudança das práticas sociais nas quais estão envolvidos.
Parece-nos que essa visão torna a Sociologia mais atraente para o público em
geral. Conforme Lash (1997,p.144) a aplicabilidade imediata empírica é a
virtude das teorias da modernidade tanto de Giddens como as de Beck. Para ele,
o que tais teorias representam o desenvolvimento do que é conhecido na Alemanha
como uma zeitdiagnostische Soziologie.
Dois livros de Beck, Risk Society e Das
ganz normaleI estão entre os livros de Ciência Social mais vendidos na
história da Europa continental, inclusive lidos pelo público leigo. Conforme
Lash, isto aconteceu porque Beck se referiu ao quanto a mudança social, em suas
linhas mais amplas, era também a mudança das vidas cotidianas.
Quanto
a Giddens, de acordo com Lash (p.145),
anteriormente suas obras eram lidas para aprender sobre sua teoria
social, seus conceitos de distanciamento tempo-espaço, a teoria da
estruturação.Agora, em virtude de estar com uma obra mais acessível, as pessoas
estão lendo seus livros para saberem sobre confiança, risco, relacionamentos, a
crise da modernidade, o papel dos sistemas especialistas.
4.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Neste trabalho, busquei subsídios teóricos para
compreender as condições epistemológicos internas e externas sob as quais estão
sendo implementadas as reformas curriculares brasileiras que têm como um dos
seus desdobramentos a volta da Sociologia ao Ensino Médio.
Tendo
em vista esse objetivo, procurei me isentar de fazer comentários críticos
acerca das próprias reformas. Por isso, nesse momento, gostaria de fazer alguns
comentários acerca do caráter
ideológico das propostas de reforma educacional em curso
Um
dos argumentos do Ministério da Educação
(1999, p.14) em favor da reformas seria que elas visam atender os novos
contextos gerados pelas mudanças decorrentes da chamada terceira revolução
técnico-industrial, na qual, o conhecimento tem um lugar central nos processos
de desenvolvimento econômico, organização do trabalho e das relações sociais.
Tanto
essas reformas como outras pelas quais passam o país (privatização,
desregulamentação das atividades produtivas, reforma administrativa,
flexibilização das relações trabalhistas)
são colocadas, freqüentemente como decorrências naturais das
mudanças citadas acima. Assim, não haveria outras alternativas e portanto, as
críticas não procederiam. Nesse sentido, as críticas são provenientes justamente daqueles que não compreenderam ou
não aceitaram o processo de globalização.
Conforme
Castells, os processos de reestruturação como resposta à crise do modelo de
acumulação industrial tiveram várias formas e intensidades em função das
condições políticas e ideológicas de cada país. Assim tivemos o caso da União
Soviética, onde os limites políticos não permitiram a reestruturação proposta
por Gorbachov. O caso americano no qual, o keynisianismo bélico de Reagan
aprofundou o déficit público. E os países do terceiro mundo, nos quais, as
políticas de reestruturação foram marcadas por
processos de transição política.
Enfim,
as reformas não são fenômenos naturais, mas sim resultam de opções políticas
que dependem da correlação de forças entre os grupos e classes que disputam o
poder. Estas correlações por sua vez, estão relacionadas à
capacidade desses grupos de tornarem seus discursos hegemônicos.
No
caso brasileiro, o discurso da naturalização e inevitabilidade das reformas
constrói a idéia de que a mudança na educação é consensual e portanto, universal visto que atende aos
interesses de todas as classes sociais. Nessa perspectiva, a defesa da melhoria
da educação básica feitas por homens de negócios, entidades empresarias, meios
de comunicação expressa em artigos,
reportagens, campanhas publicitárias significa que, nesse momento, não só os
setores populares estão envolvidos com
essa questão.
Situação
diferente de épocas anteriores, nas quais, o empresariado estava preocupado
somente em ter um
trabalhador preparado para executar tarefas parcelares, formados em programas de socialização e qualificação
como aqueles oferecidos, em tempos não muito remotos, pelo sistema S (SENAC,
SENAI, SESI, SESC). Esse tipo de trabalhador, obediente e adestrado, hoje
seria, um entrave para a melhoria da qualidade e da produtividade das empresas.
Nesse
sentido, os empresários e governo estão juntos com os movimentos sociais na
defesa de bandeiras como: “toda criança na escola”, “democratização e autonomia
das escolas” e “valorização do magistério”. Assim, nesse contexto, é tarefas de
“todos” criar alternativas que acabem com a defasagem idade-série no ensino
fundamental, reformar o ensino médio e a educação profissional, expandir o
acesso ao ensino superior, etc.
Um
outro aspecto da ideologia das reformas é individualizar as soluções para os
problemas sociais . Dessa, forma o desemprego é um problema do trabalhador que
não se adaptou ao perfil exigido pelo nova forma de organização do trabalho, ou
seja, ele não possui criatividade, visão de conjunto, capacidade de liderança,
de abstração, domínio de conhecimentos científicos que fundamentam a produção.
Então
cabe ao trabalhador, individualmente, buscar uma melhoria da sua qualificação e
assim aumentar sua capacidade de encontrar empregos, isto é, sua
empregabilidade, visto que, hoje, não há mais postos fixos e definitivos no
mercado de trabalho.
Na
linha desse discurso, o desemprego não parece ter nenhuma relação com as
políticas públicas desenvolvidas. Ao contrário, o governo com as privatizações e abertura econômica têm aumentado a
entrada de recursos externos no país
que a médio prazo significarão um montante maior de investimentos na produção e, conseqüentemente, um maior número
de empregos.
O
governo tem também priorizado, por meio de reformas e investimentos, a
educação. A melhoria da qualidade da
educação é fator preponderante na solução do desemprego visto que esse têm como
causa principal a formação profissional precária do trabalhador brasileiro.
Trata-se, portanto de um discurso liberal
que naturaliza as relações sociais, individualiza as questões sociais e enfatiza a educação como promotora da
competitividade. Ressalta-se que é um discurso contraditório, pois, propõe uma
educação que forme trabalhadores criativos, críticos, participativos e ao mesmo
tempo, adaptados, dóceis e submissos à lógica da empresa.
Talvez
seja esse caráter contraditório, o espaço de luta, no qual, os movimentos
sociais devam buscar meios para que as reformas tenham um caráter mais avançado
do que o atual. Não podemos nos esquecer de que as reformas em curso estão
fundamentadas em princípios pedagógicos, como interdisciplinaridade,
contextualização, utilização de múltiplas tecnologias, trabalho com projetos que
estão presentes em diversas propostas
de cunho progressista em curso no país
vimos.
Hoje
mais do que nunca é importante uma visão dialética do papel da educação. A professora Juana Sancho sintetiza bem esse
papel:
“A melhor educação para um jovem em formação, como indivíduo
e como profissional, deve ser integral. Ou seja, atender às dimensões
intelectuais, emocionais e corporais. Uma educação que possibilite realizar
juízos reflexivos e desenvolver habilidades de pesquisa, que capacite para
alcançar a auto-realização e possibilite encontrar o que se é realmente; que
permita a comunicação, a criatividade, o saber resolver problemas e trabalhar
em equipe. Uma educação que também leve à utilização das novas tecnologias, mas
exercendo uma cidadania responsável, com auto-satisfação, tendo consciência de
seus direitos e deveres e disposição para o trabalho. Ou seja, alguém que não
obedeça cegamente a ninguém nem a nada. Mais que um tecnocrata radical, a
educação deve formar um cidadão radical.” (1999)
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