Reconstrução ecológica da sociedade industrial
Paulo Roberto Martin
Sociólogo, Mestre em Desenvolvimento Agrícola, Doutorando em
Ciências Sociais/Unicamp, Pesquisador do Instituto de Pesquisa Tecnológica -
IPT, Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo - SINSESP.
No presente trabalho vamos fazer uma reflexão sobre
a construção de uma Política Eco-Industrial que poderia se tornar um
instrumento de Política Pública para se alcançar uma sociedade sustentável.
O primeiro tópico a ser tratado é as relações entre meio ambiente, política industrial e desenvolvimento. A seguir apresentamos as relações entre ambiente e competitividade mediante a discussão sobre uma política ambiental voltada para este aspecto. Em continuidade relaciona-se as questões ambientais com as questões tecnológicas sob o título de meio ambiente e oportunidade tecnológicas.
No quarto item apresentamos nosso entendimento de
sociedade sustentável bem como de sua importância para a humanidade. No tópico
seguinte tratamos da reestruturação ecológica da sociedade industrial através
de uma política eco-industrial que contemple também as relações entre trabalho
e meio ambiente.
Finalizando este texto apresentamos uma breve
conclusão preliminar no sentido de sintetizar os caminhos da construção da
sociedade sustentável.
1. Meio Ambiente,
Política Industrial e Desenvolvimento
Embora
a economia mundial tenha quintuplicado desde 1950([1]),
os benefícios e os impactos sobre o
meio ambiente dela decorrentes, foram distribuídos de forma desigual, tanto
entre as nações, quanto no âmbito
interno das mesmas.
Para
que possamos entender este processo e refletir no sentido da sua superação,
escolhemos o caminho de explicitar as relações entre meio ambiente e política
industrial, pois é o primeiro que recebe, através das industrias de
transformação, todos os impactos
inerentes às ações das diversas políticas industriais colocadas em prática nos
vários países.
Assim
sendo, o primeiro passo é explicitar o nosso entendimento sobre o meio
ambiente. Este está de acordo com o expresso por Rattner quando diz:
"encaramos o meio ambiente como sendo o produto da interação entre os
homens e a natureza e de interação entre os próprios homens, em espaços e
tempos concretos e com dimensões
históricas e culturais específicas que expressam também o significado político
e econômico das mudanças que se pretende induzir ou sustar."([2])
Claro
está que o entendimento expresso acima implica na superação da visão de que a
natureza seria algo infinito e passivo, e na adoção de uma visão holística e
integrada da interação homem-natureza:
"A visão integrada e holística do mundo, da sociedade e da trajetória dos
homens requer, além da educação e conscientização permanentes, relações de
produção diferentes."([3])
Entendimento
semelhante é expresso por Ferreira quando afirma que: "Uma consciência
sobre os princípios da ecologia conduz ao reconhecimento de que toda a
atividade humana tem um custo ecológico a ela vinculado, o que significa que
qualquer intervenção nos sistemas e processos naturais não pode ignorar a
capacidade de sustentação, a elasticidade e a diversidade da base de recursos
naturais. Tal consciência também enfatiza a necessidade de compreendermos a
natureza holística da vida: a vida biológica, social e política."([4])
Quanto
à política industrial, esta é aqui entendida no seu enfoque abrangente,
fundamentado em autores como Jonhson([5]),
Corden ([6]),
Adams e Bolino([7]) , Possas ([8]),
e Suzigan([9])
, sendo que deste último retiramos as
seguintes passagens esclarecedoras sobre este conceito: "O enfoque adotado
é o que se poderia chamar de política industrial lato senso, e se apoia em
autores que como Jonhson (1984), Corden (1980), Adams e Bolino (1983) e outros,
consideram política industrial uma expressão abrangente de medidas e
programas que direta ou indiretamente
afetam o setor industrial.
Assim
considera-se como parte de uma política (ou estratégia) industrial os seguintes
elementos: planejamento geral indicativo, formalização de diretrizes e
objetivos, organização institucional específica, articulação com a política
macroeconômica, targeting de indústrias ou tecnologias específicas,
instrumentos e políticas auxiliares (política de comércio exterior, financiamento,
políticas de fomento, políticas de regulação e competição, investimento em
infra-estrutura econômica e de ciência e tecnologia, sistema educacional e
treinamento de mão de obra e formação de recursos humanos
especializados".([10])
A
política industrial originou-se no Japão, fundamentalmente ligada a formas e
graus de cooperação entre setores público e privado. O sistema de decisão se dá
no sentido de baixo para cima, fundamentado em consulta extensiva, natureza
voluntária e não coercitiva.
A
nosso ver, a política industrial é antes uma questão política do que técnica.
Isto porque ela deve ser concebida em função de decisões políticas que a
sociedade deve tomar em relação a que configuração industrial se deseja para o
país, bem como qual a relação de apropriação da natureza admitida por esta
sociedade. A partir disto, a política industrial deve ser construída enquanto
estratégia para se atingir tais objetivos. Para tanto, ela deve tomar decisões
no presente para modificar comportamentos no futuro.
Para
que tenhamos êxito neste processo,
acreditamos que as concepções mais abrangentes de política industrial sejam as
mais adequadas a concebê-la enquanto estratégia, bem como para realizar a
chamada competitividade sistêmica, necessária à entrada do país na chamada
terceira revolução industrial.
Na
medida em que é praticamente impossível a um único projeto de tese abranger
todos os setores industriais existentes, estaremos dirigindo nossas reflexões
para o setor químico e, dentro deste, particularmente para as indústrias de fertilizantes e defensivos
agrícolas. “(...) Quanto aos fundamentos analíticos da política industrial,
existem várias correntes da literatura abrangendo desde as que procuram
justificar as intervenções do estado através de política industrial dentro do
arcabouço teórico neoclássico, como necessárias para corrigir falhas ou
imperfeição de mercado, até as de filiação neoschumpeteriana-evolucionista que
atribuem papel fundamental às ações normativas (policies), em contraposição ao
mercado, bem como a características específicas de “path dependence” nos
processos de acumulação tecnológica e desenvolvimento industrial, com um
espectro entre estes dois extremos."([11])
Para
Suzigan: "Assim fundamentada a política industrial seria essencialmente
uma forma de criar externalidades positivas (tecnológicas e pecuniárias) que
propiciem aumentos de produtividade (capital e trabalho) na economia como um
todo. Este aumento de produtividade, por sua vez, viabiliza o aumento do
salário real e o crescimento da acumulação de capital, sem pressão sobre os
preços e, por fim, a melhoria do bem estar social - objetivo último de qualquer
política pública e, em particular, da política industrial."([12])
Os
fundamentos analíticos da política industrial a serem aqui assumidos estão no
campo neochumpeteriano-evolucionista,
acima apresentado, dado que este
enfoque "centrado na concorrência e na mudança tecnológica facilita
perceber que a política industrial nesses países, cumprida a sua
industrialização, pode e deve voltar-se predominantemente para a
competitividade, e com ênfase nas condições sistêmicas, sem que isto envolva
adesão a modismos ideológicos ou submissão a interesses hegemônicos. E que tal
redirecionamento tem um caráter mais duradouro, não se limitando ao esforço
atual de restruturação ou às circunstâncias internacionais de acirramento da
concorrência, em que a globalização em curso ainda não logrou um mínimo de
equilíbrio estratégico"([13])
Na
visão acima exposta está implícita a concepção de que um dos objetivos da
política industrial é promover as condições necessárias ao aumento da
competitividade, sendo esta entendida como a capacidade de criação e manutenção
de assimetrias concorrenciais.
Para
tanto, o caminho é a adoção de medidas de natureza regulatória como instrumento
sistêmico de estímulo a competitividade, visando "assegurar que as
empresas operem num ambiente submetido a permanentes pressões competitivas em
suas posições de mercado, de forma não só a coibir abusos de um poder econômico
em si legítimo, como também a estimular os ganhos de eficiência e de capacidade
inovativa e a sua difusão."([14])
Um
dos principais instrumentos que estão diretamente ligados à criação e
fortalecimento deste ambiente no âmbito regulatório das atividades econômicas
são as leis, normas e medidas de política que afetam a defesa do meio ambiente.
A
política industrial apresenta várias relações de interdependência com as demais
políticas, como por exemplo a política macroeconômica (câmbio, juros, política
fiscal). Assim, podemos nos referir a uma política industrial
"implícita" ou "embutida" nas demais políticas econômicas.
Portanto, existe uma mútua influência entre a política industrial e a política
econômica.
O
quadro a seguir, elaborado por SUZIGAN, apresenta a política industrial, seus
instrumentos e articulação com outras políticas.
Política Industrial: Instrumentos e articulação com
outras políticas.
A
articulação das várias políticas, expressa
na forma visual, acima apresentada, será por nós assumida, de acordo com
Suzigan, conforme explicita este autor: "Idealmente, a liberalização
comercial deveria fazer parte, como uma das políticas instrumentais, de um
sistema articulado de política econômica cujo eixo fosse composto pela política
macroeconômica, pela política industrial e por metas setoriais claramente
estabelecidas, centradas em diretrizes, objetivos e estratégias definidos pela
política industrial. A este eixo seriam acopladas, além das demais
políticas instrumentais, também as aqui denominadas políticas estruturantes
(tecnológica, educacional, e de investimento em infra-estrutura). Estas
visariam a competitividade do sistema econômico e não só da indústria, como é
evidente. Corresponderia a uma orientação de política econômica centrada numa
estratégia industrial que visasse a competição sistêmica e a criação ou
sustentação de vantagens comparativas em setores ou industrias
específicas."([15])
Ao
estudar a Política Industrial no Brasil 1974-1989, Nogueira Costa (1994)
utiliza-se do marco teórico acima referido, pois para o referido autor política
industrial é entendida " como a influência direta ou indireta do Estado
nas atividades industriais, de acordo com sua visão estratégica de desenvolvimento
econômico, através de articulações com o setor privado; de incentivos
econômicos; de empresas estatais; de política de comércio exterior; e do
arcabouço regulatório. Constituem seus objetivos precípuos a melhoria da
performance de setores e/ou da indústria como um todo e a expansão ou, quando
for o caso, o sucateamento de capacidade produtiva, tendo como pano de fundo, a
busca de um desenvolvimento o mais harmônico possível, dada a inerente
instabilidade da economia capitalista. (...) Não é contraditório tecnicamente a
política industrial estar conciliada com outras políticas públicas na busca,
explícita e concreta, da elevação do padrão de vida da população. Esta ressalva
serve para distinguir este enfoque daqueles que acreditam na auto-suficiência da
prosperidade industrial, para amainar as desigualdades sociais, e na
identificação natural entre as metas econômicas e as sociais."([16])
Para
o mesmo autor duas são as regras
básicas de política industrial sendo que: "A primeira regra sugere que a
política industrial precisa se caracterizar: pela seletividade de setores a
serem protegidos e/ou favorecidos por incentivos fiscais e/ou creditícios; pela
definição de prioridades; pela fixação de temporariedade de incentivos fiscais;
pela exigência de contrapartida das empresas aos benefícios outorgados às
mesmas pelo Estado, quanto a, por exemplo, desempenho, fim do controle
acionário familiar, investimentos em P&D, e uma clara demarcação dos
efeitos desejados e possíveis a curto, médio e longo prazo.
A segunda
enfatiza a necessidade de agilidade na capacidade de assimilação de novas
circunstâncias que, por ventura, se abatam sobre as tendências tecnológicas e
econômicas ou no reconhecimento de equívocos nos planos originais, para que
reformulações parciais ou mesmos globais possam ser feitas com rapidez. Por
conseguinte, a renovação e a criatividade são essenciais para a preparação e
execução da política industrial."([17])
Um
outro aspecto marcante da política industrial que é o seu caráter histórico, no
sentido de que ela só pode ser construída e entendida de acordo com a época e o
país em que é posta em prática. Findas as questões relativas à política
industrial, cabe iniciarmos a discussão sobre qual é o padrão aceitável de
apropriação da natureza que, por sua vez, está diretamente ligado à noção de
desenvolvimento.
Sem
realizar uma longa revisão histórica do conceito de desenvolvimento, podemos
afirmar que ele foi se modificando ao longo da história da civilização. Neste
século, encontra-se associado ao capitalismo, ao progresso técnico e
científico, ao aumento significativo da produção e do consumo de bens
industrializados (daí a importância de analisarmos a política industrial) e de
serviços. Mas também está associado à destruição pois, "os recursos naturais
que parecem esgotar-se não são apenas os mesmos do passado recente. Se antes
eram os minérios, o carvão, o petróleo, hoje já se trata, também, da água, da
atmosfera, que considerados recursos renováveis parecem atingir um limite para
a sua recomposição, pois o tempo geológico contrasta cada vez mais, com a
velocidade de utilização. Velocidade intensificada no século XX. O buraco na
camada de ozônio é um exemplo, a poluição das águas é outro. A necessidade de
"enclausurar" Chernobil ou o Césio em Goiânia, ou ainda os imensos depósitos de resíduos tóxicos,
demonstram a incapacidade, pelo menos atual, de destruir os
"produtos/resíduos" desta
produção. Não mais apenas o medo dos vulcanismos e de terremotos do passado,
medo, hoje, também é de contaminação radioativa, das doenças pulmonares, pela
poluição do ar, e de doenças como o cólera, transmissíveis pelas águas. Medo da
destruição da biosfera em sua totalidade e não apenas da contaminação
local."([18])
Esta
realidade aponta para o fato de que embora tenhamos alto desenvolvimento de
tecnologias que indicariam para a
superação das necessidades colocadas pela humanidade, por outro lado, o exemplo
acima mostra a exaustão da natureza. Basta
morar em São Paulo para sentir isto na pele.
As
limitações atinentes à exploração dos recursos naturais, também podem ser
observadas, quando refletimos sobre a generalização de determinados padrões de
consumo. Vários estudiosos têm demonstrado que, se tentássemos fazer com que o
mundo inteiro tivesse o padrão de vida norte-americano, os recursos naturais do
planeta não durariam até o final do século.
Segundo
Veiga: "Paradoxalmente, é no momento em que se começa a vislumbrar a
superação do tão falado "reino da necessidade", que se pode, também, enxergar com muita nitidez,
que o planeta Terra está ameaçado e que é preciso "salvá-lo". Ao
mesmo tempo, essa operação de salvação entra em choque com a utopia
desenvolvimentista. É esta a contradição que está na base da noção de
"desenvolvimento sustentável". Procura-se uma solução de compromisso
entre o industrialismo ainda exigido pela periferia e o
"pós-industrialismo" já inaugurado no centro. Sejam quais forem os
termos desse compromisso, uma coisa é certa: a velha utopia industrialista não
é mais sustentável"([19])
A
constatação da impotência quanto a utopias também foi explicitada por Buarque,
ao referir que um dos primeiros sonhos do homem foi poder controlar a natureza
para construir uma utopia. Nas últimas décadas se constatou que o homem
"desorganiza o clima, suja as águas,
destrói recursos, polui atmosfera, aumenta a desigualdade e constrói a
apartação. (...) O meio ambiente, que não era um problema no começo do século,
salvo para alguns movimentos conservacionistas, mais preocupados, em geral, com
a caça do que com a natureza, se transformou em um dos problemas centrais para
os próximos anos. Mas seu entendimento e sua solução não serão fáceis. Uma
sociedade antropocêntrica, uma lógica que não é capaz de incorporar o homem
como parte do processo natural ou o processo natural como parte da riqueza do
homem, e uma civilização que vê o processo industrial como sua motivação, tudo
isto dificulta a formação de um paradigma que seja capaz de enfocar
corretamente o problema ecológico."([20])
É
neste contexto que pretende-se estabelecer o conceito de Desenvolvimento
Sustentável que visa se contrapor à importância assumida pela questão ambiental
a nível mundial. Este assume conotações distintas, segundos os diferentes
agentes sociais. Vejamos uma síntese das concepções a respeito deste conceito.
Assim é que "em 1974, em simpósio realizado pelo PNUMA e pela UNCTAD, a
expressão desenvolvimento sustentável apareceu nos documentos dos encontros
(declaração de Cocayoc), para significar um novo tipo de desenvolvimento que
não agrediria a natureza. Desde então a expressão "desenvolvimento
sustentável" vem se firmando no vocabulário de ecologistas para designar a
conciliação entre a preservação ambiental e produção econômica"([21])
Publicado
em 1987, o relatório Brundtland ou "Nosso Futuro Comum" contempla o
desenvolvimento sustentável enquanto conceito chave do referido relatório
e, como sendo aquele que "leva em
conta as gerações futuras", usando menos
matérias-primas e buscando ser mais eqüitativo. "Desenvolvimento
sustentável é uma correção nos padrões de desenvolvimento, sem maiores
alterações das estruturas sociais; não questiona a existência dos conglomerados
transnacionais e parte do pressuposto de que a organização capitalista é
natural."([22])
Outra
que não questiona a organização capitalista é a perspectiva eco-empresarial em
que "desenvolvimento sustentável é sobretudo uma questão tecnológica e de
expansão de mercado. A aceleração do crescimento econômico capitalista é
entendida como fator de proteção ambiental, uma vez que a miséria é identificada como a grande causa
da degradação ambiental"([23])
Na
perspectiva eco-socialista: "desenvolvimento sustentável se tornou uma
adulteração, uma falsidade, na medida em que propõe como solução para a crise
ecológica a expansão do sistema de mercado, o mesmo mercado que tem destruído a
natureza e a economia popular de subsistência.
Na
perspectiva das alianças dos cidadãos do planeta, desenvolvimento sustentável
tem que ser aquele que não apenas é ecologicamente sustentável, mas
principalmente, socialmente justo e politicamente viável, baseado em regimes
democráticos participativos, que garantam a sua gestão pela sociedade.([24])
Na
perspectiva dos trabalhadores "o fio condutor das propostas sobre
desenvolvimento sustentável por parte da sociedade civil está na defesa da
cidadania e da democracia participativa, que busca ver reconhecidos o direito e
a capacidade que as pessoas do povo têm de escolherem como querem viver e quais
seus destinos. Neste sentido, os fóruns, tribunais populares, etc., são
movimentos "guarda-chuva" nos quais se abrigam diferentes segmentos
da sociedade, numa palavra: a transformação da ordem social vigente para um
modelo de desenvolvimento social justo e ecologicamente sustentável."([25])
Esta
diversidade de entendimento a respeito do desenvolvimento sustentável, segundo
os diversos agentes sociais, também foi registrado por Viola: "Os
parâmetros do debate ambiental mudaram em 1990: já não se fala mais em proteção
ambiental independente do desenvolvimento econômico, passando a ser o eixo do
debate a maneira de atingir um novo estilo de desenvolvimento que interiorize a
proteção ambiental. Independentemente do fato de alguns setores(majoritários)
usarem a expressão desenvolvimento sustentável e outros(minoritários) rejeitarem-na,
todos concordam que o Brasil precisa de desenvolvimento econômico. Deste modo
esboça-se um novo debate sobre o tipo de desenvolvimento sustentável que se
deseja, no qual podemos diferenciar três posições: estatista, comunitária e de
mercado. Para a primeira é o Estado que, através de mecanismos normativos,
reguladores e promotores, deve ser o locus privilegiado de um novo
desenvolvimento social e ambiental sustentável: esta posição prioriza o
critério da equidade sobre o da eficiência. Para a segundo é a comunidade que,
através dos movimentos sociais e das organizações não-governamentais que
promovem um novo sistema de valores fundado na solidariedade, deve ser o locus
privilegiado de uma alocação social e ambiental sustentável de recurso: esta
posição somente valoriza o critério da equidade, desconsiderando o problema da
eficiência. Para a terceira é o mercado que, através de taxas/tarifas de
poluição e depleção de recursos e cotas
de poluição comercializáveis, deve ser o locus privilegiado de um novo
desenvolvimento ambientalmente sustentável; esta posição prioriza o critério da
eficiência por sobre o da equidade."([26])
Por
outro lado, devemos estar atentos para aquilo que ressalta Isabel C. M. Carvalho, no sentido de que é preciso que
façamos "uma escuta mais rigorosa desta espécie de "senso comum
ecológico" que a todos iguala numa aparente afinidade, quando abriga
perspectivas diversas e mesmos antagônica. (...) Entendo que esse tipo de
análise reforça a ruptura com as falsas alianças, sustentadas pelas
generalizações, e favorece a emergência das diferenças, dos antagonismos. Só
desta maneira é possível tomar partido, assumir posturas e convicções, que não
se restringem as escolhas de procedimentos técnicos e metodológicos, para uma
ação pragmática. Da manutenção do dispositivo homogeneizador, decorre a
opacidade da crítica sobre as questões ambientais, e o aborto das práticas
possíveis, que surgiriam, imprevistas, desse confronto."([27])
As
diversas visões apresentadas sobre o desenvolvimento sustentável nos leva a
concordar com a seguintes afirmações: "Se tomarmos o conceito de
desenvolvimento sustentável, veremos como as articulações e explicitações
metodológicas tornam-se necessárias em função mesmo do sentido polissêmico que
adquiriu. Este conceito pode vir a se tornar uma daquelas idéias promissoras ,
enquadradas no capítulo das boas intenções das quais "o inferno está
cheio".
O
conceito precisa ser substantivado à luz da atual divisão internacional do
trabalho, da revolução tecnológica em curso, da conformação de bloco de países
em mercados comuns, dos conflitos norte-sul, para que então possa deixar a
hipostagia, o idealismo, a utopia."([28])
"Pode-se concluir então que o tão apregoado e aspirado “modelo de
desenvolvimento sustentável” é algo ainda em constituição, nutrindo-se de
fontes diversas. Sua fórmula, felizmente, não se acha pronta em nenhuma gaveta,
de governo ou cientista. Esperamos que a diversidade apenas enriqueça o debate,
não chegando ao limite de paralisar ações. O planeta e seus herdeiros
agradecerão."([29])
Modestamente,
este projeto pretende contribuir nesta direção, ao propor a realização de um
estudo sobre meio ambiente e política
eco-industrial.
2. AMBIENTE E COMPETITIVIDADE
A
competitividade não é mais encarada como uma questão de preços, salários, e
taxas de cambio. Estas eram as explicações dadas pela chamada visão econômica
tradicional. Países que se tornaram amplamente competitivos, como Japão e
Alemanha, o fizeram com crescimento dos salários e com períodos de relativa sobrevalorização
cambial.
No
presente, a competitividade tem como cenário "a chamada 3a
revolução industrial, como pano de fundo o processo de globalização produtiva e
financeira, como atores os grandes grupos transnacionais globalizados, como
palco a economia mundial e como enredo a concorrência capitalista em nova fase
de acirramento."([30])
Neste
contexto, a nova interpretação sobre esta temática, reconhece que a
competitividade internacional das economias nacionais fundamenta-se na
competitividade das empresas. Deste ponto de vista, a competitividade refere-se
à capacidade da firma de gerar lucros, crescer, baseada em seus custos de
produção, nos seus preços, mas também, na capacidade de se estruturar e
organizar-se para usar novas tecnologias, e, como conseqüência, obter melhores
performances e qualidades dos seus produtos.([31])
Todas
as firmas encontram-se inseridas em um dado ambiente econômico que lhes fornece
externalidades de caráter físico, social, tecno-científico, bem como, um
aparato regulatório e institucional. Portanto, este ambiente econômico tem uma
influência direta na competitividade das empresas. É este o aspecto que nos interessa para o presente
trabalho
Assim
sendo, parece adequada a noção de "competitividade sistêmica como modo de expressar
que o desempenho empresarial depende e é também resultado de fatores situados
fora do âmbito das empresas e da estrutura industrial da qual fazem parte, como
a ordenação macroeconômica, as infra-estrutura, o sistema
político-institucional e as características sócio-econômicas dos mercados
nacionais."([32])
Segundo
os autores acima citados, as nações, indústrias ou empresas têm o seu
desempenho competitivo vinculado a três aspectos que podem assim ser
caracterizados:
1. fatores internos tais como: capacidade
tecnológica e produtiva; qualidade e produtividade dos recursos humanos;
conhecimento de mercado; qualidade e amplitude dos serviços pós-vendas, etc.;
2. fatores estruturais relacionados a:
2.1. características dos mercados consumidores em
termos geográficos, faixa de renda, grau de sofisticação dos produtos;
2.2. configuração da indústria em que a empresa
atua, em termos de grau de concentração; escalas de operação; atributos dos
insumos; grau de verticalização e diversificação setorial e ritmo, origem e
direção do progresso técnico.
2.3. concorrência, no que tange às regras que
definem a conduta e estruturas empresariais em suas relações com consumidores,
meio ambiente e competidores, propriedade dos meios de produção, inclusive a
propriedade intelectual.
3. Fatores sistêmicos, que são aqueles que
constituem externalidades para a empresa produtiva. Podem ser de diversas
naturezas, sendo as principais:
3.1. macroeconômicos: como taxa de câmbio, taxa de
juros, oferta de crédito;
3.2 político institucionais: políticas tributária e
tarifária, poder de compra do Estado, apoio a riscos tecnológicos;
3.3. regulatórios: políticas de proteção à
propriedade industrial, preservação ambiental, defesa da concorrência e defesa
do consumidor;
3.4. infra-estruturais: disponibilidade, qualidade
e custo de energia, transporte, telecomunicações e serviços tecnológicos;
3.5. Sociais, como a qualificação da mão-de-obra,
políticas de educação e formação de recursos humanos, trabalhistas, seguridade
social, grau de exigência dos consumidores;
3.6. Regionais, relativos à distribuição espacial
da produção.
Após
indicar os vários fatores que influem na competitividade, podemos concordar com
Possas quando este afirma que: "Competitividade, como a própria
concorrência, não é um atributo espontâneo dos "mecanismos de
mercado" deixados ao seu livre arbítrio e livre curso, mas um resultado,
sempre inconcluso e temporário, construído pela ação estratégica, tanto privada
como pública."([33])
Esta concepção teórica a respeito da competitividade,
está vinculada ao universo neo-schumpeteriano([34])
e se opõe ao universo neoclássico ([35]).
O meio ambiente só é referenciado em duas ocasiões.
A
primeira delas se refere ao aspecto
concorrencial dos fatores estruturais. Aqui se atribui importância à relação
que a empresa mantém com o meio ambiente. Portanto, o meio ambiente é encarado
enquanto um fator que pode influenciar na concorrência entre as empresas. Esta
concorrência está vinculada a regras que definem condutas que as empresas devem
ter em suas relações com o meio ambiente.
Em
segundo lugar o meio ambiente é referenciado quando se toca nos aspectos
regulatórios dos fatores sistêmicos da competitividade. Aqui se entende que a
Política de Preservação Ambiental atua sobre uma das externalidades, stricto
sensu, com as quais as empresas produtivas se defrontam.
Portanto,
tanto pelo lado dos fatores estruturais, quanto dos fatores sistêmicos, é
admitida a influência do meio ambiente sobre a competitividade, através do
aspecto regulatório, ou seja, através das leis, decretos, normas,
portarias, que regulam as relações
entre empresas e meio ambiente.
Esta
forma de encarar o meio ambiente expressa o entendimento de que este é um fator
restritivo de competitividade, conforme podemos constatar no texto abaixo:
"Como indicado anteriormente, os efeitos ambientais da atividade econômica
são um dos "novos temas" crescentemente presentes na agenda dos
organismos multilaterais e das negociações internacionais, com impacto
potencial importante na criação de restrições à penetração de produtos em
mercados externos, e portanto à competitividade revelada. A implantação de uma
política reguladora efetiva de defesa do meio ambiente é, por essa razão, uma
necessidade não apenas de prazo mais longo, mas que se coloca desde já. (...)O
principal objetivo de uma política ambiental voltada à competitividade
industrial brasileira no momento é o de promover o ajuste das empresas
industriais potencialmente mais afetadas por essas barreiras, ao menor custo e
no menor tempo possíveis. Tais indústrias são, basicamente, as emissoras de
poluentes (ar e água) e as mais intensivas no uso de recursos naturais
(minerais e florestais). O efeito principal das restrições ambientais a essas
indústrias é a elevação dos preços relativos
dos produtos e serviços intensivos em recursos naturais e ambientais,
reduzindo sua competitividade."([36])
Neste
tipo de visão, o meio ambiente é relacionado a competitividade porque
nossos parceiros comerciais colocam
determinadas restrições a produtos que utilizam processos poluidores,
apresentam resíduos perigosos, usam intensamente energia e recursos naturais,
apresentam sérios problemas decorrentes de seu consumo, etc.
Caso
não houvesse exigências a cumprir, o meio ambiente estaria relegado a uma
importância menor ainda, enquanto um fator de competitividade. Seria uma
externalidade considerada "amorfa" com a qual não deveria haver
nenhuma preocupação.
Assim
foi durante vários anos, mas, toda a crise ambiental, apresentada no primeiro
tópico deste trabalho, produto deste modelo insustentável de desenvolvimento,
bem como, com o surgimento do ambientalismo ativo que mostrou sua força na
ECO/92, transformaram o meio ambiente numa externalidade
"resplandecente", sobre a qual o pensamento econômico deve se
debruçar.
Procurando
expressar a visão geral da economia da relação entre competitividade e meio
ambiente, baseado no marco teórico acima apresentado, poderíamos dizer que a
competitividade de um país é fundamentada na competitividade das empresas nele
instaladas, embora, também aqui, a soma das partes não seja igual ao todo.
Fator
determinante da obtenção de competitividade por parte das empresas é o ambiente
econômico a qual estão submetidas. Daí a importância dada aos fatores
sistêmicos da competitividade, que requerem ações de Estado, através da
constituição de uma série de políticas (entre as quais, à relativa a
preservação ambiental), que configuram um ambiente econômico propício às
empresas se tornarem competitivas no mercado e, em conseqüência, o próprio
país.
Neste
tipo de visão trata-se de agir no sentido de atender as exigências estipuladas
pelo processos, de globalização que procura homogeneizar produtos e processo,
mediante as chamadas séries ISO 9000 e ISO 14000, esta última ainda em processo
de construção e específica para as questões ambientais.
Mercados
comuns como o da Comunidade Européia e o NAFTA já adotaram a prática de
exigirem tais certificações nas suas relações comerciais com outros países.
Portanto, os países que não pertencem a estes blocos, para serem competitivos,
e colocarem seus produtos nestes mercados, devem atender tais exigências. Um
exemplo disto é a indústria brasileira de celulose e papel, que tem como
vantagem competitiva produzir a pasta de celulose através de eucalipto de fibra
curta, mas que teve que mudar seu processo de produção, no sentido de não mais
utilizar cloro, substituindo-o por carbonatos, justamente por exigências de
cunho ambiental, impostas pelo mercado comum europeu.
Além
do processo de globalização, deve-se atender também aos acordos internacionais
para controle dos gases responsáveis pelo efeito estufa (CO2) e pela
destruição da camada de
Ozônio (CFC), bem como, atender às demais
convenções assinadas na Rio/92.
A
construção de uma política ambiental com os objetivos acima assinalados, e que
contribua para a constituição de um ambiente econômico favorável a tornar as
empresas competitivas, deve observar como a referida política ambiental foi
construída nos países desenvolvidos, pois são estes que nos ameaçam com as
barreiras de cunho ambiental.
Para
tanto, vamos recorrer a Maimon. Segundo esta autora: "A nível
internacional, as políticas ambientais podem ser classificadas segundo três
macro-objetivos: uma política de segurança mínima(PSM), uma política de
crescimento sustentável e uma política com ênfase na qualidade total, incluindo neste conceito a qualidade
ambiental (OCDE, 1991)."([37])
A
política de segurança mínima foi encontrada em países com fortes restrições
orçamentarias e técnicos e com pequena sensibilização sobre as questões
ambientais.
Segundo
a autora acima referida, a política de crescimento ecologicamente sustentável
foi efetivamente implantada nos Países Baixos, Dinamarca e Suécia que adotaram
o princípio de que a reprodução dos recursos naturais é uma pré-condição da
modernidade econômica. Em outras nações da OCDE a implantação deste política
foi mais restrita. Sua base é: "a gestão racional dos recursos e a
prudência no longo prazo. Visa evitar os impasses e os custos ecológicos
insuportáveis social e economicamente. Nesta ótica, enfatiza-se a prevenção da
poluição, a internalização da externalidades, a gestão probabilística de riscos
globais, o desenvolvimento científico e tecnológico e o acesso democrático à informação."([38])
Quanto
à política ambiental com ênfase na qualidade total, a premissa é que o meio
ambiente não é só uma pré-condição de crescimento de longo prazo, mas deve ser
valorizado nos vários níveis: econômico, social e ecológico. Nesta visão, segundo
Maimon, o meio ambiente é utilizado como fator dinâmico de competitividade, de
construção de imagem internacional, diminuição de desigualdades sociais. Esta é
a política ambiental mais voltada para a competitividade, entre as aqui
apresentadas. "Atualmente, nenhum país pode advogar como praticamente da
Qualidade Total no sentido acima
exposto. Entretanto, os macro-objetivos da política ambiental da ex-Alemanha
Oriental e do Estado da Califórnia são os que mais se aproximam do modelo.
(...) A nível micro, a política de qualidade total é praticada por algumas
empresas ou setores industriais."([39])
Nos
vários países onde existe política ambiental, esta é composta de instrumentos
de comando e controle, e econômicos.
O
instrumento mais utilizado a nível mundial é o instrumento de comando e
controle, aqui entendido, de acordo com Miamos: "Podem ser definidos como
um conjunto de regulamentos e normas impostos pelo governo que tem por objetivo
influenciar diretamente as atitudes do poluidor, limitando ou determinando seus
efluentes, sua localização, hora de atuação, etc."([40])
Através
de macro-políticas o Estado pode também influenciar as atitudes do poluidor.
Como exemplo: política de Ciência e Tecnologia, política energética (matriz
energética), política regional e urbana, etc.
Já
para os neo-liberais a regulação deveria vir via mercado, o que significa a
auto-regulação como o planejamento ambiental almejado. Via mercado apostam na
"ecoeficiência", pois as pressões da opinião pública, consumerismo
ambiental, companhias de seguros, acabam por induzir as empresas a se tornarem
eco-compatíveis. Apesar da forte pressão empresarial, a maioria absoluta dos
países não tem defendido este tipo de política. Ainda de acordo com a autora
acima referida: "Os instrumentos econômicos podem ser definidos como um
conjunto de mecanismos que afetam o custo-benefício dos agentes econômicos.
Estes instrumentos envolvem tanto transferências fiscais entre agentes e a
sociedade (impostos, taxas, subsídios, etc.), quanto a criação de mercados
artificiais (licença negociáveis de poluição, quotas negociáveis, mercados de
reciclados, etc.)."([41]).
Dois
são os pressupostos teóricos deste instrumento. O primeiro está ligado à internalização das externalidades e
o segundo se refere à concorrência perfeita, portanto, ambos se encontram no
campo da teoria neoclássica, aplicada aos problemas ambientais.
A
experiência internacional com os instrumentos de controle ambiental tem
revelado largo predomínio das regulações diretas, segundo Almeida([42])
pêlos seguintes motivos: a)eficiência ecológica; b)preferência dos poluidores ,
ambientalistas e reguladores; c) divergência entre vantagens teóricas dos
instrumentos econômicos e seus impactos efetivos.
A
eficiência está relacionada à certeza dos efeitos da regulação sobre a
qualidade ambiental que, em decorrência, agradam a opinião pública e
particularmente aos ambientalistas. Pôr sua vez, os poluidores entendem que é
plenamente possível influenciar o processo de construção das regulações, bem como,
estas poderão vir a ser utilizadas enquanto barreiras à entrada de novas
firmas, favorecendo, portanto a empresas que já estão no mercado.
Sintetizando
as propostas dos evolucionistas sobre política ambiental, concordamos com
Almeida quando esta afirma que: "Em suma, em termos de política ambiental,
os evolucionistas sugerem, genericamente, que esta deve induzir à emergência e
difusão de uma trajetória tecnológica ambientalmente "correta".
Quanto aos instrumentos, não há uma opção evidente, sendo que suas sugestões
oscilam entre um “approach” mais flexível (negociações, acordos) e um mais
incisivo (normas, padrões). Sem dúvida, o papel dos instrumentos econômicos é
visto com certa reserva. Um ponto é consensual: a orientação do governo é
crucial para que essa nova trajetória se estabeleça.([43])
Quanto
à experiência internacional com instrumentos econômicos, em termos de sua
difusão e resultados obtidos assim se expressou a mesma autora: “O relato dessa
experiência - com base numa pesquisa realizada pela OCDE nos seus países
membros - revelou que, embora haja um crescente interesse por instrumentos
econômicos como taxas, criação de mercados e sistemas de devolução de
depósitos, esses instrumentos representam ainda uma parcela muito pequena das
medidas de política ambiental vis a vis as regulações diretas. Além disso, na
maioria das vezes a aplicação prática do instrumento é feita de forma bastante
distinta da sua concepção teórica, surtindo efeitos também não previstos, em
particular no que toca a compatibilidade com o principio do poluidor
pagador."([44])
Ao estudar a experiência recente da Organization
For Economic Cooperation and Development - OCDE - e da Comunidade Européia - CE
- sobre este tema, através dos
trabalhos da OCDE/92 e CE/90, Martins afirma que: "podemos verificar que o
comportamento em relação ao ambiente tem mudado significativamente ao longo dos
anos 80 e 90.
Certamente
as mudanças ocorridas ainda não são suficientes em termos da construção do
chamado "desenvolvimento sustentável", conforme é reconhecido pelo
próprio relatório OCDE/TEP/1992, pois a política ambiental foi executada via
regulação. Exemplo é a aplicação do princípio do poluidor-pagador como forma de
combater a emissão de poluentes. Esta forma de política apresentou distorções.
As principais foram:
1. A opção por tecnologias "end of pipe"
com ação apenas no final do processo, não tem apresentado incentivo
razoavelmente forte para o redesenho fundamental de produtos e de processos
2. O sucesso das políticas tem se dado em relação
ao controle das grandes fontes industriais de poluição, mas não quanto ao
controle de fontes difusas como, por exemplo, os consumidores urbanos e os
agricultores.([45])
3. As
políticas regulatórias se ativeram aos problemas mais óbvios e aos meios
mais acessíveis de resolve-los. A redução dos riscos futuros e os esforços relativos às tecnologias "clean",
requerem mais gastos financeiros.
Assim,
de maneira geral as políticas promoveram a difusão da "melhor tecnologia
disponível", mas não viabilizaram inovações especialmente destinadas a
objetivos ambientalistas."([46])
“Por estarmos ainda na fase de conferir mais ações às conseqüências do que às
causas da poluição, a questão da competitividade industrial ainda é suavizada,
na medida em que até o presente momento, bastou identificar e utilizar as
chamadas tecnologias limpas. Foi o que fizeram os países da OCDE. Uma segunda
etapa se aproxima, e tanto a OCDE quanto a CE estão cientes deste fato. Este
novo nível se refere ao momento em que novas trajetórias tecnológicas mudarão
os processos de produção e de competitividade, mediante a queda dos custos de
produção e mudança nas preferência dos consumidores."([47])
Com exceção da política ambiental com ênfase na
qualidade total, que utiliza o meio ambiente como fator dinâmico de
competitividade, mas que segundo Maimon, não é praticada em nenhum país (vide
nota 44), poderíamos dizer que todas as demais concepções de política
ambiental, atribuem ao meio ambiente, um papel de fator passivo em termos de
competitividade, isto é, é um fator restritivo à competitividade, e o que deve
ser feito é se adaptar às exigências estipuladas pelos mega mercados, produtos
do processo de globalização da economia.
No
tópico seguinte procuraremos realizar uma reflexão que aponte para uma nova
concepção das relações entre meio ambiente, biodiversidade e competitividade.
3. MEIO AMBIENTE E OPORTUNIDADES TECNOLÓGICAS
No
campo neoclássico da teoria econômica, representado pela economia ambiental e
dos recursos naturais, o pressuposto adotado é que toda externalidade pode ser
quantificada e em conseqüência receber uma valoração monetária. Com isto
estaríamos internalizando as externalidades.
As
criticas a esta postura podem ser feitas sob vários aspectos. Um destes é o
aspecto metodológico, pois, os neoclássicos trabalham fundamentados no
individualismo metodológico, segundo o qual: "todas as instituições,
padrões de comportamentos e processos sociais só podem ser em princípio
explicados em termos de indivíduos: suas ações, propriedades e relações. É uma
forma de reducionismo, o que quer dizer que nos leva a explicar os fenômenos
complexos em termos de seus componentes mais simples."([48])
Para
os neoclássicos os indivíduos são livres, dispõem de todas as informações necessárias à tomadas de decisões e as tomam
de forma racional, baseados em suas preferências. O locus das ações dos
indivíduos é o mercado. As críticas a esta postura explicitam que as
preferências alteram-se historicamente, o interesse próprio é uma caracterização inadequada das
preferências, e, sob determinadas condições, a ação "racional" não é
possível, mesmo que os indivíduos sejam racionais.
A crítica
feita pela economia ecológica à postura da economia ambiental (neoclássica) é
que: "argumentamos contra la posibilidad de internalizacion convincente de
las externalidades, sendo uno de los argumentos principales el de la ausencia de las generaciones futuras en los
mercados actuales, aun se esos mercados se ampliam ecologicamente mediante
simulaciones basadas en la disposicion a pagar, y no en pagos realmente
efectuados. Pensamos que, en el mejor de los casos, los agentes económicos
actuales valoram de manera arbitrária los efectos irreversibles e inciertos de
nuestras acciones de hoy sobre las generaciones futuras. (...) La crítica
ecológica se basa además en la incertidumbre sobre el funcionamento de los
sistemas ecológicos que impide radicalmente la aplicación del análisis de
externalidades. Hay externalidades que no conocemos. A otras, que conocemos, no
sabemos darles um valor monetario actualizado, al no saber siquiera si son
positivas o negativas."([49])
Fica
descartado para a análise que realizamos, o marco teórico neoclássico, bem como
sua versão expressa na economia ambiental e dos recursos naturais.
A
nossa opção é por trabalhar com a economia ecológica, entendida enquanto estudo
da compatibilidade entre a economia humana e o meio ambiente no longo prazo.
Esta compatibilidade não está assegurada pela valoração de recursos e serviços
ambientais em mercados reais ou fictícios.
Quem
mais se coaduna com esta visão são os chamados evolucionistas, na medida em que
no marco teórico schumpeteriano aqui adotado, as externalidades devem ser
olhadas numa perspectiva dinâmica e de longo prazo. Os processos de mudanças
estão gerando ininterruptamente novas "externalidades" que devem ser
tratadas de um jeito ou de outro.
No início do século quem poluía as cidades eram os
cavalos que produziam o esterco e não os carros com suas emissões de CO2,
mesmo porque a capacidade de produção e o número de empresas automobilísticas
nesta época, eram reduzidas. Durante várias décadas o padrão produtivo parecia
gerar apenas "externalidades" positivas. Com a institucionalização do
processo de produção em massa desses bens, a percepção das externalidades foi
mudando. Hoje sabemos que o padrão
produtivo tecnológico do pós-guerra resultou num acúmulo de
"externalidades" negativas, uma delas, as emissões de CO2,
cujo volume, devido a quantidade de veículos existentes nas grandes metrópoles
([50]),
torna o ar poluído, acarretando doenças
nas populações locais. Portanto, a
percepção das externalidades é historicamente datada ou evolutiva.
Mesmo
quando as externalidades negativas são muito evidentes e mesmo que haja
possibilidades de trajetórias tecnológicas alternativas no sentido de serem
menos poluentes, estas são de difícil adoção, dada a trajetória do
desenvolvimento tecnológico dominante que na literatura especializada é
referenciada enquanto fenômeno de "lock in". Isto nos leva a enfatizar a necessidade de
conhecermos as restrições existentes tanto do lado da oferta como da demanda
por novas tecnologias. Somente ao abrirmos a "caixa preta"
científico-tecnológica é que poderemos identificar os mecanismos de
auto-reforço que implicam no "lock-in".
Assim
sendo, para se determinar que o progresso tecnológico siga na direção
pretendida (tecnologias limpas ou menos poluentes), devemos levar em conta o
que escreveu Almeida: "De acordo com a perspectiva evolucionista, a
seleção da tecnologia, a forma e o ritmo de sua difusão no conjunto da
economia, dependem do contexto histórico - lato senso - específico. Para que a
preocupação ambiental se torne um imperativo - uma "restrição
direcional" - ao desenvolvimento tecnológico, o meio social em questão é
que deve ser capaz de imprimir tal direcionamento. Este é um ponto que, sem
dúvida, merece maiores detalhamentos, remetendo a uma maior compreensão das
ligações entre economia-ecologia-tecnologia."([51])
Ainda
para esta autora: "Antes de proporem instrumentos específicos de política
ambiental, os evolucionistas se preocupam em precisar o que se entende por uma
trajetória de desenvolvimento ecologicamente sustentável. Esta envolve uma
reestruturação econômica baseada na difusão de tecnologia Ambiental, definida
como: termo genérico que abarca uma ampla variedade de técnicas, processos e
produtos, os quais ajudam a evitar ou limitar os danos sobre o meio ambiente.
Os autores fazem distinção entre este tipo de tecnologia (também denominada de
clean/cleaner technology) e a tecnologia de controle/redução da poluição
(cleaning technology). Esta basicamente cuida da remoção de poluentes e, muitas
vezes, apenas desloca o problema ambiental (da água, para o solo ou ar). Em
essência, a poluição não é evitada, o que é possível com a
clean-process-integrated-technology, pelas quais as conseqüências ambientais de
um produto são pesadas desde o momento de sua concepção, envolvendo desde o seu
design, passando pela seleção da matéria prima e insumos em geral, o processo
produtivo, embalagem, distribuição, consumo, até a disposição final de seus
resíduos (remoção, destinação e reciclagem do lixo)."([52])
Para Romero & Salles Filho que trabalham neste
mesmo referencial teórico, o cerne da questão é: "considerações de ordem
ambiental por parte dos agentes econômicos tendem a fazer parte de suas
estratégias inovativas na exata medida em que signifiquem oportunidades de
criação de competência para a busca de vantagens competitivas. O conceito
central sobre o qual esta idéia está baseada é o do mecanismo evolucionário de
busca e seleção proposto por Nelson & Winter (1982). Adicionalmente
trabalha-se com as noções de trajetória tecnológica, (...) heterogeneidade
interindustrial ou das firmas ([53])
Após
especificar os conceitos acima referenciados, Romero & Salles-Filho afirmam
que: "A primeira pergunta que se deve fazer é: quais são as relações entre
inovação tecnológica e meio ambiente dentro de um cenário de fortes mudanças
nos fatores de pressão de seleção? Complementarmente, deve-se questionar em que
medida as demandas de natureza ambiental (de ordem social, tecnológica,
econômica) mudam as agendas de busca por inovações dos agentes econômicos. Para
responder a essas perguntas é importante ter em mente que a questão ambiental
na atualidade assumiu uma abrangência inédita, não podendo mais ser eludida
como já ocorreu em vários momentos da história recente. (...) Essa
característica histórica impõe mudanças no comportamento dos agentes
econômicos. Até aqui tratada como uma externalidade, uma falha de mercado que
pode ser corrigida através da precificação dos recursos, a questão ambiental
tende a ‘se tornar uma condição de desenvolvimento industrial moderno’ (Godard,
1993:147). É preciso pois interpretá-la como um fator de seleção nos ambientes
concorrenciais e dessa forma internalizá-la na análise econômica. Em outras
palavras, a partir do momento em que a busca por inovações passa a se dar num
ambiente seletivo que tem como um de seus delimitadores a questão ambiental,
não há porque imaginar que esse processo de busca não vá tomar em conta,
objetivamente, a exploração de trajetórias tecnológicas ligadas a esse
‘constrangimento’ dos ambientes seletivos. E isto vale tanto para inovações
‘end of pipe’. como para a geração de tecnologias limpas. A lógica interativa
entre meio ambiente e inovação tecnológica, nesta perspectiva, é uma só,
independentemente de se tratar de mudanças para reduzir a poluição ou
depleção."([54])
Os
autores ressaltam que a incorporação da questão ambiental pelo ambiente econômico
seletivo é tendencial. Isto significa que para os referidos autores, por
princípio não existe a hipótese de que o ambiente seletivo venha a compreender
a questão ambiental em toda a sua extensão, mesmo porque, isto é incompatível
com o modo de produção capitalista. Isto só seria possível quando a atividade
econômica passasse a se sujeitar, em primeira instância, às restrições de ordem
ecológica. Decorrente disto, na visão dos autores, não ha a instalação de um
círculo virtuoso que: "quanto maior a pressão de seleção, mais os agentes
responderiam e melhores seriam os resultados para o meio ambiente."([55])
Na
qualificação da pressão de seleção, os autores entendem que existem dois
fatores importantes, a saber: 1) os ambientes seletivos contêm 4 âmbitos de
especificidades: dos países, dos setores , das tecnologias e dos ativos . 2)
“Timing” de incorporação. "Do primeiro ponto decorre que os ambientes
seletivos não são os mesmos para todos, ao contrário, os agentes econômicos
percebem as pressões de formas distintas, segundo seu caso particular. A
importância das pressões ambientais diferem nos países, são desiguais nos
setores, assumem diferenças segundo o tipo de tecnologias e variam imensamente
de acordo com o tipo de produto (alimentos, bens de consumo duráveis, energia,
etc.).
O grau de percepção do problema, assim como a criação de instituições formais e tácitas que regulam o binômio produção/degradação não apenas variam enormemente segundo as especificidades acima apontadas, mas são função de um certo timing, cuja natureza é também em grande parte decorrente das especificidades (problemas mais ou menos visíveis, mais ou menos prementes), bem como