Educação formal e treinamento: Confundir para doutrinar e dominar

Valdo José Cavallet

Professor da UFPR. Mestre em Agronomia pela UFPR. Doutor em Educação pela USP. Estudos Complementares em Desenvolvimento e Formação Profissional pela Universidade de Pisa/Itália.

 

         Nos dois últimos séculos, com inúmeras inovações tecnológicas e estruturais, com o avanço significativo da Ciência, com as rupturas nas tradições, nas formas de expressão e das relações humanas, pelo aumento da velocidade e a diminuição das distâncias de espaço e tempo, com a ênfase dada na personalização, na competitividade e na simulação do cotidiano pelas imagens intensificadas dos meios de comunicação de massa, as instituições sociais encarregadas da educação passaram a viver um dualismo: a formação integral, do homem para a vida, e a formação técnica e especializada, do homem para o trabalho.

Estes aspectos podem ser dicotômicos ou complementares. A disputa pela hegemonia da concepção econômica de educação, que seria determinada pelo mercado, sobre a concepção social e humana, voltada ao desenvolvimento integral do homem, representaria o aspecto dicotômico na medida que tem uma expectativa de não mudar o homem do ponto de vista de sua construção, mas adaptá-lo ao mundo do trabalho que está em mudança. A complementaridade dos aspectos ocorreria ao se estabelecer conscientemente o desenvolvimento de ambas as formas, com métodos apropriados.

A sociedade é complexa e são caracterizadas circunstâncias de crise  pelos mais diversos segmentos sociais. O modelo de desenvolvimento em vigor tem se mostrado ineficaz para superar os grandes desafios da atualidade. Portanto, o que ocorre  é uma crise de paradigma. A educação é apontada como solução para a crise. Mais do que nunca, a escolarização tem sido colocada em destaque por representantes dos mais diversos segmentos sociais. Frente aos desafios da atualidade, até o sistema financeiro internacional, de forma explicita e inédita, passou a defender a intensificação dos processos de escolarização. (TOMMASI; WARDE; HADDAD, 1998)

Os departamentos de educação de Instituições Financeiras, como o Banco Mundial, passaram a ocupar um espaço estratégico na formulação e implementação de novos modelos escolares. Em suas políticas a escola transforma-se numa linha de montagem, capaz de resolver todos os problemas e contradições do modelo de desenvolvimento adotado. Como se toda a teoria educacional acumulada na história tivesse sido um grande engano dos educadores, executivos como o chefe do departamento de educação do Banco Mundial (CASTRO, 1999), num diletantismo credenciado pela grande imprensa, em função dos postos que ocupam, afirmam taxativamente que nem sequer mais o modelo pedagógico interessa: basta ser aluno normal que aprenderá tudo o que interessa, independente da linha pedagógica. Reduz-se a educação escolar a treinamento para competir por oportunidades de trabalho. A formação integral, social e humana, é relegada a plano secundário ou inexistente.

Com a doutrina imposta pelas instituições financeiras, caminha-se inversamente à construção de uma política educacional de superação, as políticas públicas desaparecem, dando lugar aos negócios empresariais, caracterizados pela curta duração, alta flexibilidade e inexistência de unidade – treinamentos rápidos e amplamente diversificados de cunho econômico-produtivo, que visam preparar a pessoa para ser altamente competitiva no processo de trabalho, e paralelamente, pretendem vender o produto educação, que transformou-se numa grande oportunidade. Embora transforme a pessoa competitivamente, esta fórmula também é alienante. A educação para o trabalho como fim, prende o sujeito dentro do processo de trabalho. Além das categorias mão-de-obra e mente-de-obra, agrega-se às demais categorias alienantes, uma nova, a mente-de-consumo. (DE MASI, 1999)

Na sociedade agrícola os setores dominantes reduziam os dominados a mão-de-obra, que analfabetos e pelo trabalho braçal, atendiam as demandas da elite. Na sociedade industrial, com o desenvolvimento tecnológico, somou-se à mão-de-obra, a mente-de-obra, que pelo treinamento escolar contribuíram para modernizar o sistema produtivo e as formas de dominação. Agora, na sociedade pós-industrial acrescenta-se à mão-de-obra e à mente-de-obra, a mente-de-consumo. A formação do modelo dominante, além de preparar para o processo produtivo, passa ser uma mercadoria de massa, de demanda infinita, e, propiciadora de grandes acúmulos financeiros aos seus idealizadores e provedores.

O utilitarismo do modelo de educação, proposto pelos setores dominantes, sobrepõe-se ao espaço educacional, na sua luta histórica de construção do homem e transformação da sociedade. Objetiva o atendimento das necessidades imediatas, transformando o processo de educação em produto final de venda, que atende ao mundo do trabalho, negligenciando os excluídos e as necessidades mais particularizadas. Confunde-se intencionalmente, chamando tudo de educação, retirando o espaço de construção da consciência. A concepção está separada da execução, sendo elaborada pelos responsáveis pelo modelo de desenvolvimento econômico para atender necessidades imediatas.

Não se invalida a forma de treinamentos rápidos e diversificados e a formação para o trabalho, principalmente quando entendidos como meio num contexto onde se preserva o espaço para a formação mais abrangente.

Necessário porém, pensar qual o modelo pedagógico se pretende: o que contribui para formar um ser consciente, capaz de se entender e se ver no mundo, que possa construir a vida e o mundo como um todo ou o que pensa isto como meio de desenvolver o sentido do trabalho. Mas a educação, embora confundida pelo senso dominante com os treinamentos rápidos de preparo, que objetivam a manutenção do modelo de desenvolvimento econômico vigente, tem diferentes papéis. Não se nega a formação como meio, mas esta deve merecer o seu devido espaço, integrada à formação que possibilite a construção de um projeto de vida, de trabalhar com a realidade acompanhando suas evoluções, com características de especialização e generalização e o desenvolvimento da capacidade crítica, que tem como princípio educativo a pesquisa. (DUARTE, 1999)

O homem deve ter uma formação para a vida, a ele deve ser permitida a condição de construção de um projeto de vida, de buscar uma profissionalidade[1]; portanto, uma capacidade de se inserir, de compreender o mundo e transformá-lo, pela capacitação para conceber novos processos e paradigmas, com a visão de desenvolvimento social; amparado por políticas públicas, com inserção nos movimentos sociais; baseado em toda a teoria educacional, com a visão crítica dos educadores; feitos em instituições educacionais, num processo integrado na sociedade, com visão interdisciplinar e cooperativa, compatível com cada acúmulo realizado; que tenha o princípio educativo da pesquisa, que crie consciência e propicie uma integração entre das pessoas que estão excluídas. Os sindicatos, juntamente com outras representações sociais, podem desenvolver, para dar conta, tanto de inserir os trabalhadores economicamente a curto prazo, como possibilitar projetos de vida e transformações sociais, um projeto pedagógico, com linhas norteadoras semelhantes às apontadas neste parágrafo. Um projeto que pense além, e inclua questões como saúde e qualidade de vida, resgate e respeito às identificações culturais e necessidades pessoais.

O esquema abaixo, ilustra as diferenças entre um modelo de formação técnica e um modelo de educação profissional e humana, e, sem a pretensão de esgotar a discussão sobre o tema, pode nortear a construção de um novo modelo pedagógico de formação.

 

Aspectos/Modelos escolares

Formação Técnica

Educação Profissional e Humana

O QUE o modelo possibilita?

Ocupação[2]

Profissão[3]

O QUE buscam os participantes?

Necessidades imediatas

Projeto de vida

POR QUE? 

Característica..................................

 

Competitividade

 

Cooperação

 

Objetivos.........................................

Empregabilidade

Disputar os espaços existentes

Lucro

Profissionalidade

Conceber novos processos

Desenvolvimento social

Tipo de atividade

Negócio Empresarial

Política Pública

COMO:

·         Idealizadores............................

 

Instituições Financeiras

Setores Empresariais

(Economistas)

 

Instituições Educacionais

Movimentos Sociais

(Educadores)

·         Referencial teórico....................

Teoria Econômica

Teoria Educacional

·         Concepção e Execução.............

Processo separados

Processo integrado

 

·         Estrutura Curricular.................

Módulos Específicos e Intensivos em Unidades especializadas

Formação integral e contínua em Centros interdisciplinares

·         Tempo Curricular.....................

Curta duração

Compatível c/maturidade intelectual

·         Abordagem Pedagógica............

Transmissão/Reprodução Treinamento

Ensino c/ Pesquisa problematizada

Educação reflexiva

·         Resultante Pedagógica..............

Condicionamento

Conscientização

Conseqüências

Exclusão

Integração

 

Na construção de um modelo pedagógico é prioritário que se tenha clareza sobre o ideal e o perfil buscado e de quais compromissos norteiam esta busca. No momento seguinte, é importante a seleção de princípios educativos que possibilitem a concretização deste perfil (que não seja algo utópico) e na seqüência a elaboração de uma proposta curricular exeqüível e que propicie atingir os objetivos pretendidos.

O perfil constitui-se da convergência de múltiplas opiniões e posicionamentos das partes envolvidas. Apesar disto ousamos sugerir uma linha macro, que seria a de um sujeito capaz de responder por atividades imediatas, criar novos processos e ao mesmo tempo criar projetos de vida, buscando a profissionalidade. O que possibilita a construção do perfil é o modelo pedagógico. Para atender a um perfil é preciso definir um princípio educativo. O principio educativo tem que estar concretizado numa atividade pedagógica, portanto , uma atividade curricular.

A concepção de um modelo deve ser uma etapa do processo educativo, concebida integradamente pela comunidade curricular: educadores e educandos. (JORGE, 1993)

         A separação entre a concepção e a execução da formação profissional, onde o contato entre os agentes educacionais para o planejamento curricular é minimizado, dificulta o desenvolvimento de habilidades pedagógicas direcionadas a questionar as contradições da formação dos estudantes. Os professores, preocupados com a execução de conteúdos especializados, permanecem distanciados do objetivo principal da educação: a formação harmoniosa e integral de um profissional e cidadão. A formação proveniente de um currículo concebido numa esfera e executado em outra, através de docentes especializados em diferentes áreas do conhecimento, além de proporcionar um caráter sincrético[4] ao projeto pedagógico, facilita sobremaneira a produção e reprodução do conhecimento acrítico. (CAVALLET, 1999)

         Frente às necessidades de transformações sociais e diante da limitação do modelo de formação imposto pelos setores dominantes, defende-se alterações que sejam capazes de propiciar ao conjunto da população o discernimento e a aptidão para que venham contribuir de forma decisiva para o futuro da sociedade. Trabalhando-se dialeticamente com o conhecimento humano e com suas inerentes contradições, há espaço para a construção de processos curriculares que possibilitem a formação de profissionais socialmente mais compromissados.

         Paulo FREIRE (1978, 1986, 1998)  educador brasileiro reconhecido mundialmente, defendeu a educação, como dinamizadora do processo de mudança, através de um método ativo e participativo, firmando bases da aprendizagem:

·       Capacidade de auto-reflexão como desenvolvimento da consciência crítica, que reorganiza as experiências vividas, transformando a realidade;

·       A aprendizagem modifica o homem que, ao mesmo tempo em que se renova, mantém a própria identidade. Portanto, uma aprendizagem libertadora de conquista e aumento da autonomia;

·       A busca permanente como sujeito, e não objeto da educação; com a consciência da característica humana de ser inacabado;

·       A noção do tempo, que diferencia homens de animais, e caracteriza o homem como ser histórico, capaz de construir o futuro com base no passado;

         Essas bases possibilitam a teoria educacional afirmar que:

·       a criatividade e inovação só se desenvolvem no exercício da liberdade, definida como capacidade de escolher entre as alternativas com a clara compreensão de suas conseqüências;

·       a praxis criadora somente ocorre com a incorporação do aprendizado refletido, que flui das trocas entre mestre e aprendiz, participativamente, na construção da realidade, pelas decisões do presente.

         É importante que seja desenvolvida uma forma de internalizar a ampliação constante de conhecimentos, culturalmente amplos e suficientemente específicos, para que sejam aplicáveis em alternativas e soluções significativas  na viabilização dos objetivos da educação. É necessária a consciência das ligações entre os  atos praticados e os componentes do meio onde se inserem.

         Diferente de treinar o ser humano para uma ocupação no mercado de trabalho, a ação educativa deve formar um profissional para contribuir, através da geração, intermediação e inter-relação do conhecimento, de forma decisiva na busca de um desenvolvimento baseado na eficiência, eqüidade e sustentabilidade. Para esse novo profissional, o trabalho deve ser um ato político-social consciente.

         A profissionalidade resultará de uma aprendizagem permanente, que será desencadeada por uma formação inicial, integralizada com consistência pedagógica rigorosamente adequadas ao grau de complexidade científica e responsabilidade de cada uma das atividades desenvolvidas na sociedade contemporânea.

Por outro lado, as transformações sociais, pressupõem a superação do utilitarismo e do reducionismo promovido pelos setores dominantes sobre as políticas educacionais.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

CASTRO, Cláudio Moura.  Pais não sabem o que procurar.  Revista Época, São Paulo, n. 73, p.88, 11 out. 1999.

CAVALLET, Valdo José.  A formação do engenheiro agrônomo em questão: a expectativa de um profissional que atenda as demandas sociais do século XXI.  São Paulo, 1999.  Tese  (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação.  Universidade de São Paulo.

DE MASI, Domenico.  Desenvolvimento sem trabalho.  2. ed. São Paulo: Esfera, 1999.

DUARTE, Newton.  Educação escolar, teoria do cotidiano e a escola de Vigotski.  2. ed.  Campinas: Autores Associados, 1999.

FREIRE, Paulo.  Ação cultural para a liberdade.  3. ed.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

FREIRE, Paulo.  Educação como prática da liberdade.  17. ed.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

FREIRE, Paulo.  Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido.  5. ed.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

JORGE, Leila.  Inovação curricular: além da mudança dos conteúdos.  Piracicaba: Unimep, 1993.

TOMMASI, Lívia; WARDE, Míriam Jorge; HADDAD, Sérgio (Org.).  O Banco Mundial e as políticas educacionais.  2. ed.  São Paulo: Cortez, 1998.



[1] Profissionalidade é um neologismo utilizado, como indicativo da capacidade do profissional em implementar alternativas eficazes diante da crise e dos problemas da atualidade tanto imediatas, como de projetos de vida.(CAVALLET, 1999)

[2] Neste texto, a ocupação é entendida como a atividade humana que se preocupa em atender às demandas normais da sociedade, através da repetição de soluções já conhecidas. Diferencia-se de profissão, na medida em que essa última, ocupa-se, além de atender demandas normais, através de soluções já consagradas, em produzir análises, consolidar novos marcos teóricos e em criar e desenvolver novos processos.

[3] Uma profissão é constituída pelos seguintes elementos básicos que a caracterizam: conceito, ideal, objetivos sociais, formação acadêmica, conteúdos específicos, regulamentação profissional, autonomia, entidades representativas, código de ética e reconhecimento social. (CAVALLET, 1999)

[4] Visão de conjunto confusa, de uma totalidade complexa, decorrente da junção de doutrinas e concepções heterogêneas e não articuladas entre si.