O MOVIMENTO EM DEFESA DA VIDA NA VOTAÇÃO DO ABORTO LEGAL NO RIO GRANDE DO SUL
Este artigo é fruto da dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul titulada A votação do projeto de regulamentação do aborto legal na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul: o projeto de lei n° 148/97. Porto Alegre: 2000.
Vera Simone
Kalsing
Vera Simone e Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Resumo: Este artigo apresenta e discute a posição do Movimento em Defesa da Vida com relação ao problema do aborto e a sua atuação na votação do Projeto de Lei sobre o aborto legal do então Deputado Estadual Marcos Rolim (PT – Partido dos Trabalhadores) aprovado pelo parlamento gaúcho e vetado pelo governador em dezembro de 1997. O texto é finalizado com a afirmação de que as igrejas agiram para que se mantivesse o veto do governador, tratando-se de uma confirmação da posição da Igreja com relação ao aborto. Neste conflito, duas formas distintas de pensar a questão do aborto, afirmam-se como representantes legítimas de uma visão de mundo, e nela, uma visão prevaleceu, a religiosa, a visão da Igreja católica e do MDV.
Palavras-chave: aborto, Movimento em Defesa da Vida, Igreja católica, interrupção da gravidez, vida, embrião.
O Projeto de Lei de
autoria do então Deputado Estadual Marcos Rolim (PT – Partido dos
Trabalhadores) que autoriza o atendimento nos hospitais da rede pública de
saúde nos casos de aborto previstos na legislação penal brasileira: gravidez
resultante de estupro ou que represente risco de vida para a gestante foi
aprovado pelo parlamento gaúcho e vetado pelo governador em dezembro de 1997.
Voltando à Assembléia, em março de 1998, o veto foi acatado.
Na segunda votação, onze parlamentares, que haviam votado a favor
do projeto, mudaram o voto. Ao se investigar
a atuação de forças favoráveis e contrárias à manutenção do veto constatou-se
que o MDV (Movimento em Defesa da Vida) e as igrejas (principalmente, a
católica) constituíram-se como forças determinantes para a sua manutenção,
exercendo pressão sobre os deputados e o governador. O movimento feminista, por
sua vez, encontrava-se desmobilizado e não foi capaz de criar um lobby igual ao
dos movimentos religiosos para pressionar pela aprovação do projeto. O momento
pré-eleitoral[2]
foi outro fator decisivo na tomada de posição por parte do representante do
Executivo e na reconsideração do voto por parte dos representantes do
Legislativo, preocupados com a repercussão negativa junto ao eleitorado. Este
artigo apresenta e discute a posição do MDV com relação ao problema do aborto,
como também a sua atuação no referido processo.
No início dos anos
80, quando o movimento feminista propunha a discussão sobre a legalização do
aborto no país, entra em cena nesse debate um novo ator: o Movimento em Defesa
da Vida. Naquele momento, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
convocou uma reunião em São Paulo, que tinha como objetivo exercer pressão
contrária, foi então que surgiu o MDV. Em Porto Alegre, esse grupo iniciou suas
atividades em 1981.
O movimento Pró-Vida
mundial surgiu nos Estados Unidos[3],
onde possui uma atuação de destaque, assim como em vários países da América
Latina. Embora nos Estados Unidos o aborto seja totalmente legalizado desde
1973, os grupos pró-vida norte-americanos possuem uma organização e atuação
muito intensa e permanente, promovendo ataques contra clínicas de aborto,
chegando a provocar o seu fechamento, inclusive fazendo uso da violência
apedrejando seus estabelecimentos.
Aqui no Brasil, o
Movimento em Defesa da Vida não se restringe apenas à luta contra a legalização
do aborto, caracteriza-se sobretudo como uma luta em favor da vida, em todas as
fases, entendendo que esta começa a partir da concepção. Assim, sua posição é
contrária à pena de morte, ao aborto e à eutanásia[4].
Consiste em um
movimento de caráter educativo e social, que tem por objetivo conscientizar as
pessoas do direito e do respeito à vida desde a concepção até a morte natural,
e vem apresentando alternativas concretas para aquelas mulheres que, numa
situação de conflito, procuram o aborto como solução. A atuação do MDV é muito
intensa nas escolas e universidades, através dos meios de comunicação e ainda
por meio de locais de atendimento e orientação a gestantes e a pessoas que
desejam adotar crianças. Existem o SOS Gestante em Dificuldade, um atendimento
anônimo a mulheres que estejam com problemas em sua gravidez, a Casa de
acolhimento a gestantes adolescentes carentes e o Instituto Amigos de Lucas que
trabalha com o encaminhamento para a adoção, possui creche, berçário e
atendimento pré-natal, todas entidades coordenadas pelo MDV e mantidas pela
comunidade[5].
Embora nascido dentro
da Igreja católica, atualmente o MDV é um movimento autônomo que congrega entre
seus adeptos pessoas ligadas aos mais diferentes credos religiosos e partidos
políticos e também pessoas que não professam fé religiosa alguma. Uma das
principais diferenças em relação à Igreja católica é a de que o MDV é a favor
da anticoncepção de emergência, enquanto a primeira afirma-se radicalmente
contrária até mesmo ao uso de preservativos. Conseqüentemente, o MDV atua na
linha da prevenção, orientação sexual e planejamento familiar, com um
entendimento e uma preocupação voltados para o lado social.
Sendo assim, a
atuação no processo de votação do PL 148/97 foi um trabalho excepcional, tendo
em vista que o movimento desenvolve atividades permanentes no campo do
convencimento e da conscientização a respeito da sua ideologia. As outras
mobilizações efetuam-se de acordo com o momento, a exemplo do processo em
questão.
As igrejas,
principalmente a católica, ao sustentarem posição radicalmente contrária ao
aborto, o fazem com base no mandamento “não matarás”. Trata-se, neste caso, de
um mandamento não somente religioso, mas um princípio moral que define uma
pauta social e uma conduta individual. Ou seja, as pessoas orientam suas
condutas de acordo com esse princípio, algumas delas, mesmo não sendo adeptas
de nenhuma religião, sustentam posição contrária ao aborto, entendendo que a
vida é um bem maior a ser preservado. É o exemplo de alguns adeptos do
Movimento em Defesa da Vida.
Tendo a vida como
primeiro valor e, baseando-se na Constituição Federal que, em seu artigo 5o,
garante a inviolabilidade desse direito fundamental, as
religiões de um modo geral e os militantes do MDV entendem o aborto como uma
agressão à vida e como um crime.
A questão da defesa
da vida humana em qualquer estágio torna-se para os defensores da escolha (pro choice)[6]
um tanto quanto frágil no momento em que a Igreja
posiciona-se contrária ao aborto em caso de risco de vida para a mãe, por
exemplo. Neste caso, a Igreja afirma que o médico deve esforçar-se ao máximo
para tentar salvar as duas vidas, caso isso não seja possível, ele deve salvar
a do feto. Ou seja, consagra-se tanta humanidade à uma vida em potencial e tão
pouca humanidade à vida da mulher.
A deputada Jussara
Cony (PC do B) entende o aborto como uma questão de gênero, “o direito do
não-nascido sobrepondo-se ao direito do nascido e esse
nascido é uma mulher”. Neste sentido, a falta de regulamentação do atendimento
nos casos de aborto legal constitui-se como uma discriminação contra a mulher.
Resta saber porque a
Igreja e os movimentos religiosos consagram tanta humanidade à vida do feto ou
embrião[7]
não-nascido. Posição esta que faz com que uma das discussões centrais a
respeito do problema do aborto gire em torno da questão do início da vida
humana, ou seja, indaga-se sobre qual seria o momento exato em que o embrião
pode ser considerado um ser humano.
Neste debate,
manifestam-se interlocutores com posições e pontos de vista claramente
distintos. Representantes das igrejas católica[8],
evangélicas e outras religiões e alguns autores da ciência médica e da bioética[9],
defendem a opinião de que a vida humana começa a partir da concepção. Para
esses, portanto, em qualquer fase da gestação, o aborto é considerado um
assassinato. Outros representantes da ciência médica (embriologia experimental,
teoria do córtex), filósofos bioeticistas[10]
e representantes do movimento feminista[11]
têm dúvidas quanto ao exato momento em que um embrião pode ser considerado um
ser humano. Entre esses, alguns defendem o argumento de que só pode haver vida
humana a partir da formação do córtex cerebral, processo que só se anuncia ao
término do terceiro mês de gestação. Esta é a posição do deputado Marcos Rolim.
O ponto nodal dessa discussão é o início da vida humana.
Para entrarmos nesse
debate propriamente, devemos, em primeiro lugar responder a uma pergunta: o que
é o aborto? Os defensores do argumento favorável[12]
respondem que é a interrupção da
gravidez. Já os contrários, afirmam ser este o assassinato de um ser humano.
Sendo assim, procuraremos responder a essa questão, buscando comprovar a
validade desses argumentos.
Aceitando o argumento
de que o aborto é a interrupção da gravidez, devemos, necessariamente, formular
uma segunda questão: “quando de fato começa a gravidez?” Pesquisas científicas
revelam que a fecundação ocorre muitas horas depois do ato sexual e que o óvulo
fecundado inicia seu aninhamento na parede uterina por volta do sexto dia após
a fecundação, processo este conhecido por “nidação” e que só será concluso por
volta do 14º dia. Rigorosamente, não se pode falar em “relação biológica” entre
a mulher e o embrião antes da nidação, razão pela qual alguns especialistas têm
insistido na idéia de que a gravidez começaria a partir desse momento. Aceita
esta definição de “gravidez”, não haveria aborto antes de conclusa a nidação e
os efeitos gerados pelo DIU ou pela pílula RU 486 (“pílula do dia seguinte”[13])
poderiam ser classificados como “contragestatórios”, mas não como “abortivos”[14].
Para discutir o
argumento daqueles que sustentam ser o aborto um homicídio, é preciso se
colocar uma outra pergunta. Se o aborto é a morte deliberada de “alguém”, vale
dizer, de uma “pessoa”, quando, no embrião, se identifica uma pessoa? Os
defensores do argumento dirão “desde sempre”. Contrapondo-se a essa posição, o
deputado Marcos Rolim compartilha da premissa de que só pode haver “vida
humana” a partir da formação do córtex cerebral. Para melhor defendê-la, ele
utilizou-se das reflexões de um filósofo bioeticista, Maurizio Mori que, ao
tratar do problema do aborto, propõe a discussão sobre o conceito de pessoa.
Para Mori[15],
“pessoa é o indivíduo racional”. Indivíduo é uma palavra cuja origem latina
denota aquele que é indivisível na qual pode-se identificar uma relação de
subordinação das partes ao todo. Tomando um embrião com oito células e
dividindo-o, resultará gêmeos monozigóticos que percorrerão um desenvolvimento
autônomo e diferenciado. Se, entretanto, estes dois grupos de células voltarem
a unir-se, haverá, de novo, um único embrião. Até o 14º dia após a
fecundação o aglomerado de células pré-embrionárias ainda não diferenciou
aquelas que irão formar o feto daquelas que irão formar a placenta. Quanto ao
potencial de racionalidade, segundo alguns cientistas, é inconcebível sem a
presença do córtex cerebral, processo que só se anuncia ao término do terceiro
mês de gestação. Antes disso, portanto, não haveria “uma pessoa”. É por isso
que se costuma indicar o período dos primeiros 14 dias com o termo geral de
pré-embrião. Assim, indivíduo é aquele ente que não é divisível e que, se
dividido, morre ou se dissolve. Mas o pré-embrião, se for dividido,
simplesmente se separa em dois gêmeos e, portanto, não é um indivíduo.
Ainda conforme o
autor, a concepção é uma das várias etapas do mais amplo processo reprodutivo,
mas não é absolutamente o evento que determina a diferença entre “prevenir a
formação de uma vida” e “matar uma vida já formada”.
Neste sentido, os
defensores do argumento favorável ao direito de escolha alegam que a discussão
deve se dar no sentido de que o embrião possui apenas uma vida vegetativa e não
vida intelectiva, já que ainda não ocorreu a formação do córtex cerebral. Deve
se discutir em termos de possibilidade de ser, de viabilidade desta vida fora
do corpo da mãe.
A posição do
Movimento pela Vida[16]
tem um papel dominante no debate contemporâneo, pois sua influência é tão forte
que faz passar para segundo plano as diferenças com a posição católica, e de
tal forma que, muitas vezes, esta é vista como uma versão daquela. Por isso
parece que toda controvérsia depende da questão de saber se o feto é ou não
pessoa. A esse respeito, o opositor ao aborto é tão seguro da resposta
afirmativa que coloca o problema da seguinte forma: se o feto é pessoa, então o
aborto é sempre (moralmente) ilícito enquanto homicídio, e se, ao contrário,
não é pessoa, então é sempre lícito.
No conjunto de sua
argumentação, o deputado Rolim, para contrapor-se ao argumento religioso,
ateve-se à questão do início da vida humana e à defesa da qualidade de vida,
não contemplando com a mesma importância a discussão e a defesa dos direitos
reprodutivos, o que no entender das representantes do movimento feminista foi
bastante problemático.
As feministas
afirmaram que a utilização do argumento filosófico, sem o relevo e a devida
importância no que tange aos dados de milhares de mulheres que morrem em
conseqüência de abortos feitos de forma insegura, foi problemática e
comprometedora, levando o “outro lado” a utilizar-se dessa argumentação,
beneficiando-se dela. Os próprios integrantes do MDV afirmam que fizeram uso
das declarações do deputado, quando ele afirma que “um amontoado de células não
é uma pessoa”[17],
e que isso auxiliou na mobilização dos grupos religiosos e como forma de
revoltar a opinião pública.
Do ponto de vista
jurídico, os membros do MDV argumentam que não se pode dizer que existe aborto
previsto em lei ou amparado por ela, mas sim, que há dois casos que se
configuram como crime e que não são punidos. A não penalização nesses dois
casos não autoriza a sua prática deliberada.
Conforme Percival
Puggina[18],
“nesses casos o aborto, isto é, uma conseqüente morte do feto, seria uma
situação em que quem assim procedesse não seria responsabilizado criminalmente,
o que não significa, nem filosófica nem juridicamente, que este aborto seja
legal, simplesmente se diz que quem o pratica não será penalizado, o aborto
continua sendo crime, só não sofre pena a pessoa que o pratica”.
A abertura de um precedente para um processo gradativo e
rápido para a implementação do aborto em geral é o maior temor dos movimentos
religiosos. “Esse foi o mesmo caminho percorrido nos países em que hoje o aborto
é legal, como a França e os Estados Unidos”, afirma a presidente do MDV de
Porto Alegre, Helena Costa[19].
Assim, os
representantes do MDV e da Igreja católica opuseram-se radicalmente ao projeto
do deputado Marcos Rolim entendendo que ele teria como objetivo a ampliação das
hipóteses de aborto previstas no Código Penal brasileiro. De acordo com o Pe.
Roberto Paz, “na medida em que você destina verba pública para o aborto, você
está não só confirmando esses casos, mas está ampliando porque, na verdade, não
é só um problema de aplicação da verba pública para o aborto, já havia também
no projeto do deputado Rolim uma forma de ampliação legal, evidente, só não vê
quem não quer, e pensar que a coisa era somente manter, certamente não, é uma
forma de ampliação progressiva do aborto e a Igreja ouviu assim”[20].
Com base no projeto
do deputado Marcos Rolim, este argumento não tem qualquer fundamento, tendo em
vista que estavam bem explicitados os dois casos em que o Estado deveria
prestar atendimento, de acordo com o Código Penal brasileiro, não contendo
nenhuma cláusula que propusesse a ampliação futura para outras hipóteses de
aborto.
Do mesmo modo que a
Igreja católica, o MDV é contrário ao aborto, mesmo em caso de estupro. A
principal argumentação de seus adeptos é a de que não se deve decretar a pena
de morte ao nascituro, já que o mesmo não se faz com o estuprador. Caso a
mulher estuprada não tiver condições de criar o filho, ela deve entregá-lo à
adoção[21].
Na opinião do
deputado Marcos Rolim, ser contra o aborto em caso de estupro é obrigar as
mulheres vitimadas pela violência sexual a levarem até o fim uma gravidez
resultante de um ato criminoso. É submeter as mulheres, contra a sua vontade, à
maternidade, além de condenar, antes mesmo do nascimento, a criança à orfandade, uma criança que já não terá pai e
que não encontrará em sua mãe o acolhimento providenciado pelo desejo à
maternidade. “Concretamente, defendem um segundo estupro, violando, desta vez,
os seus direitos reprodutivos”. Obrigar uma mulher a gerar um filho não
desejado, mesmo que não seja proveniente de um estupro é “reduzi-la à condição
de um aparelho reprodutor, que funciona com uma dinâmica de máquina mesmo, de
quem se tivesse subtraído todo e qualquer desejo, como de resto a própria
condição de ser livre”[22].
O movimento feminista
tem como principal argumento o direito da mulher ao próprio corpo, sob a
alegação de que o aborto constitui um problema de fórum íntimo da mulher e que
deve ser lhe dado o direito de escolha quanto ao
número e ao momento de ter filhos. Cabe ao Estado oferecer o atendimento nos
casos de aborto permitidos pelo Código Penal brasileiro, evitando assim a sua
clandestinidade, o que acarreta um número muito grande de abortos inseguros. O Estado deve
ser laico, não permitindo que valores morais e religiosos particulares
sobreponham-se como regras de conduta dentro de uma sociedade. Para que esta
seja verdadeiramente democrática, não se pode obrigar uma mulher a gerar um
filho proveniente de um ato de violência, seria como condená-la à perpetuação
de seu trauma[23]
e interferir no seu direito à liberdade de escolha, que é um dos direitos
fundamentais do ser humano.
O conceito de vida
divide a humanidade porque é uma questão polêmica, sendo assim, não pode
existir uma legislação que imponha para a sociedade uma única concepção em
relação a esse conceito[24].
Para Rosenfield[25],
“uma justificação moral a favor ou contra o aborto não pode recorrer a crenças
religiosas; pessoas que partilham uma mesma crença religiosa podem ter atitudes
idênticas a respeito do aborto, mas não podem querer impor estas atitudes a
outras pessoas que não partilham nem têm de partilhar suas crenças religiosas.
A argumentação moral tem de valer para todo ser racional, independentemente de
crenças religiosas”.
Os representantes
religiosos[26]
afirmam-se defensores da vida desde a concepção e contribuem de forma
importante para a imposição da visão de mundo da Igreja, colocando-se na
qualidade de representantes legítimos em defesa de uma visão de mundo
reconhecida como verdadeira, por meio de um trabalho
de representação[27] que os mesmos realizam permanentemente.
O MDV possui um trabalho muito forte de representação, é o trabalho de
divulgação e disseminação de suas idéias, realizado em escolas, faculdades,
etc. E é também o caso do processo em questão, quando o MDV e a Igreja católica
tiveram um papel de destaque, constituindo-se como forças decisivas para a
manutenção do veto, como veremos a seguir.
Os
movimentos religiosos tomaram conhecimento da aprovação do projeto no dia
seguinte à votação, através de reportagem publicada pelo jornal Zero Hora[28].
A partir de então começaram sua mobilização. Inicialmente, a Igreja católica e
o MDV conduziram sua atuação pressionando o governador para que vetasse o
projeto. Percival Puggina foi um dos principais articuladores, fazendo o papel
de intermediador entre os membros da Igreja católica e do MDV e o governador.
Após a publicação do
veto, formou-se um grande movimento para pressionar os deputados que haviam
votado a favor do projeto e para tornar público o resultado e o placar da
votação. Neste momento, mais uma vez, um dos principais articuladores foi
Percival Puggina, tendo em vista que o mesmo é membro da Igreja católica e atua
em conjunto com o MDV, e era também o contato deste grupo com a Assembléia
Legislativa, fornecendo as informações a respeito do quadro da votação[29].
Segundo o voluntário do Movimento em Defesa da Vida, Jerson Garcia, o contato
desse grupo na Assembléia foi a coordenação da bancada do PPB.
A atividade de
Puggina cingiu-se principalmente à coordenação da mobilização, para garantir a
presença das lideranças contrárias ao projeto no dia da votação no plenário. Conjuntamente com o MDV e a Igreja
católica, ele organizou o processo de pressão sobre a Assembléia Legislativa.
“A partir daí, em conversa com o governador, fizemos uma mobilização junto a
setores sobre os quais eu tenho uma certa influência, que são as comunidades
religiosas católicas, no sentido de que também estas se mobilizassem e agissem
junto à Assembléia Legislativa para obtermos dos deputados o seu convencimento
a favor da manutenção do veto”.
A partir de então,
houve uma ampla mobilização por parte do MDV e da Igreja católica (em todas as
instâncias da hierarquia: paróquias e leigos). O objetivo era convencer os
deputados a votarem contra o projeto, sendo assim, a organização e a
mobilização deram-se nesse sentido.
Aproveitando a sua
inserção em diferentes instituições, como hospitais e escolas, o Movimento em
Defesa da Vida enviou cartilhas alertando sobre a votação do projeto e
conclamando todos aqueles que comungam de suas idéias a se fazerem presentes no
dia em que o veto seria apreciado pelos deputados. Enviou cartas aos
parlamentares advertindo-os de que a sua votação em favor do projeto seria
prejudicial ao seu mandato. Houve também visitas dos voluntários do movimento
aos gabinetes. “A gente atuou basicamente direto com os deputados, a gente
enviou uma carta, se visitou quase todos os deputados, conversamos com os
assessores, então, foi essa a atuação, depois no dia da atividade lá, a gente
fez tipo uma manifestação”[30].
Conforme
esse mesmo voluntário, esse movimento possui uma linha de atuação diferenciada
da linha da Igreja católica. Enquanto a atuação desta se dá num sentido mais
reflexivo por meio de vigílias, momentos de oração, o MDV atua mais por meio do
convencimento, com trabalhos de conscientização das pessoas, isto é, no caso em
estudo, da pressão direta sobre os deputados. “A gente reuniu várias pessoas de
comunidades, falamos com os deputados, o MDV trabalha dessa forma. Um dos
grupos, no momento da votação, estava em vigília na catedral. Enquanto nós
estávamos fazendo manifestações na frente da Assembléia, panfleteando para o
pessoal que entrava, esse grupo fazia orações, então, cada um tem a sua forma
que acha que deve atuar”.
A voluntária do MDV,
Idália Martins, participou juntamente com o padre Roberto Paz do debate sobre o
projeto realizado no programa Conversas Cruzadas na emissora TV COM, que tinha
no seu contraponto a deputada Jussara Cony e o deputado Marcos Rolim.
Embora a atuação do
Movimento em Defesa da Vida tenha sido bastante eficiente, ela não foi muito
enfatizada pelos parlamentares. Entende-se que isso se deve ao fato de que a
maioria dos parlamentares entrevistados professam a religião católica e associa
automaticamente os membros do MDV à Igreja católica, ou seja, ao mencionarem a
atuação dos católicos, entendem a sua atuação conjunta com o MDV.
A atuação da Igreja
católica e do MDV teve uma maior visibilidade para a sociedade e para os
deputados, segundo sua própria percepção, visto que estes foram pressionados
através de jornais, emissoras de rádio[31]
e os representantes religiosos tiveram uma presença maciça no dia da votação.
Fizeram vigílias, manifestações em frente à Assembléia e rezas na Igreja
durante a votação da derrubada do veto. Em virtude dessa visibilidade, sua
atuação teve um efeito maior[32]
em termos de pressão pública sobre os deputados, o que se entende ter sido um
fator determinante, se considerado o fato de ser ano eleitoral e a preocupação
dos deputados e do governador para com o resultado das urnas, considerando o
grande contingente eleitoral católico.
O contexto era
propício para os movimentos religiosos alcançarem seus objetivos. Sua pressão
obteve o efeito desejado por se tratar de ano eleitoral. A pressão pública
sobre os deputados foi decisiva para levar aqueles deputados que, de alguma
forma, têm compromissos com as paróquias e, por conseguinte, eram suscetíveis
às pressões, a mudarem sua posição favorável ao projeto, já que temiam perdas
de apoio eleitoral nas camadas mais conservadoras.
Uma forma de pressão
considerada muito importante, tanto pelos parlamentares, principalmente aqueles
que mudaram o voto, quanto pelos defensores do projeto, foi a presença maciça
em plenário, no dia da apreciação do veto, de representantes de várias igrejas,
assim como do MDV. Essa pressão, sem dúvida, teve um peso muito grande. É o que
afirma uma representante do movimento feminista. “Nós vimos movimentos de
mulheres e outros movimentos da Igreja, movimentos, na nossa opinião, muito
conservadores, conduzindo toda discussão naquele dia lá na Assembléia, fazendo
orações e vigílias. Na hora da votação, a pressão foi tão grande, foi uma baixaria
tão grande naquela Assembléia, um fanatismo tão grande desses setores mais
conservadores, que eu nunca tinha visto uma coisa dessas. Houve agressão, houve
corredor polonês. Então, os deputados iam entrar e estava aquela gente toda lá
rezando com terço na mão, uma coisa assim absurda, que tu não acreditas que
ainda ocorra nas vésperas da virada do milênio e, com isso os deputados se
sentiram pressionados. Teve programa de rádio em que os padres e as mulheres
desses setores, foram lá e levaram uma lista dizendo que eles eram assassinos,
isso tudo pesa na hora da votação de um projeto”.
No dia da votação, a
direção da Assembléia, considerando o fato de se tratar de um projeto polêmico,
determinou que os grupos de manifestantes contrários e favoráveis à proposição
tivessem direito cada um à metade dos lugares nas galerias. No entanto, tendo
em vista que a organização dos grupos contrários foi maior, menos da metade das
galerias estavam ocupadas pelas representantes do movimento feminista e/ou
mulheres militantes de partidos políticos, favoráveis ao projeto.
A mobilização desse
setor, no período entre o veto e a sessão de apreciação, na Assembléia, foi bem
menor que a dos movimentos religiosos, tanto em termos de pressão direta sobre
os deputados (não houve nenhum deputado (a) que declarou ter sido pressionado
no sentido contrário, ou seja, pressão contra o veto e a favor do projeto),
quanto em termos de presença em plenário. Também em termos de campanha na
mídia, os movimentos religiosos foram mais ativos. A mobilização do movimento
feminista ficou mais restrita às lideranças (COMDIM, Fórum Municipal, THEMIS[33]),
não havendo articulação com o autor do projeto e nem uma ação que mobilizasse
as mulheres de um modo geral.
Segundo
representantes dos movimentos religiosos, houve também a presença de alunos de
escolas de Porto Alegre e da região metropolitana, convocados pelo MDV. E
ainda, pessoas que vieram do interior do estado, mobilizadas por esses
movimentos e pelas igrejas. Mesmo que não tenha havido a decisão central de
lotação de ônibus possibilitando às pessoas do interior do estado virem no dia
da votação, algumas paróquias tiveram iniciativas isoladas, conforme o
depoimento do Pe. Roberto Paz.
De forma unânime, é
reconhecido o poder de pressão que os movimentos religiosos tiveram ao enviarem
cartas aos gabinetes. O conteúdo das correspondências dizia respeito ao fato de
o projeto ser polêmico e que os parlamentares deveriam se sentir responsáveis
por estarem decidindo sobre uma questão tão séria quanto a vida.
A maioria dos
deputados é proveniente do interior do estado. Em nenhum outro processo de que
se tem notícia na história da Assembléia Legislativa, houve uma pressão tão
acirrada. Isto, certamente, influenciou na alteração do voto daqueles deputados
que ainda mantêm uma relação muito próxima a seus eleitores, ou seja, às suas
cidades de origem. É indiscutível a força e o papel que a Igreja católica
possui na definição do voto nas comunidades do interior, onde existe uma
relação direta entre representantes e representados. Nas cidades pequenas, a
Igreja, principalmente a católica, tem uma inserção muito forte. Os deputados
estão atentos a sua influência sobre a escolha dos representantes da
comunidade.
De acordo com
Percival Puggina, “chegaram aqui centenas de correspondências para cada
gabinete, centenas de manifestações procedentes do interior, eu vi na época o
que eu nunca tinha visto com relação a qualquer projeto, semelhante mobilização
do interior sobre os gabinetes dos deputados”.
Conforme mencionado anteriormente,
os parlamentares foram pressionados individualmente com visitas a seus
gabinetes por membros do MDV. Inclusive os próprios representantes admitem que
advertiram os parlamentares quanto ao seu não apoio à reeleição. Conforme
Jerson Garcia, “a gente não tinha tempo suficiente para convencê-los do porquê
de nós sermos contra, então nós tivemos que fazer a pressão em cima de que essa
questão é realmente muito polêmica, a gente trabalhava em cima disso, do
convencimento dos deputados de votarem contra porque seria ruim pra eles.
Basicamente foi por pressão que mudaram os votos”.
Os movimentos
religiosos estão envolvidos numa luta propriamente simbólica para impor a
definição do mundo social mais conforme aos seus interesses. Para Bourdieu[34],
os representantes legítimos dos sistemas simbólicos (neste caso, a religião)
defendem uma visão de mundo de acordo com o capital que lhes é outorgado, isto
é, com o reconhecimento do grupo que eles representam. “Eles podem conduzir
esta luta, quer diretamente nos conflitos simbólicos da vida cotidiana[35],
quer por procuração, por meio da luta travada pelos especialistas da produção
simbólica[36],
e na qual está em jogo o monopólio da violência simbólica legítima, quer dizer,
do poder de impor, e mesmo de inculcar, instrumentos de conhecimento e de
expressão arbitrários, embora ignorados como tais, da realidade social”[37].
Sendo assim, tanto a
religião, enquanto um sistema simbólico[38],
representada institucionalmente pela Igreja, quanto os movimentos sociais e os
representantes políticos seriam passíveis de deter um poder simbólico que se
define na luta política pela imposição de sua visão do mundo, uns no sentido de
confirmá-la e outros no sentido de transformá-la. Deste modo, o poder simbólico é compreendido como “o
poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de
confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o
mundo, portanto o mundo”[39].
O processo em questão
foi uma disputa, cujos agentes envolvidos definiram determinadas estratégias de
atuação de acordo com os interesses em jogo. O que estava em jogo nesta disputa
era a definição social legítima do aborto. Nesta disputa, contrapunham-se duas
visões distintas e definidas: uma que considera o aborto um crime porque
acredita na existência de vida humana a partir da concepção e a outra que se
posiciona a favor da liberdade de escolha da mulher e entende que o aborto deve
ser tratado como um problema de saúde pública devido às milhares de mortes em
decorrência de abortos feitos em condições precárias.
Se, para os
parlamentares, as igrejas agiram para que se confirmasse o veto do governador,
trata-se de uma confirmação, de um reforço da posição da Igreja com relação ao
aborto. Neste conflito, duas formas distintas de pensar a questão do aborto,
afirmam-se como representantes legítimas de uma visão de mundo, e nela, uma
visão prevaleceu, a religiosa.
No entanto, essa
visão não está “naturalmente” garantida. A Igreja, a todo o momento, precisa
fazer valer seus interesses e impor sua percepção de mundo. No caso do aborto,
no momento em que ela defende a idéia de que este é o assassinato de um ser
humano, ela entra nesta disputa com todas as suas armas. Um dos espaços sociais
onde se discute se o aborto é crime ou não é o campo político[40],
e a Igreja se faz presente para pressionar seus representantes para que votem
de acordo com os seus interesses e assim, fazer prevalecer sua percepção a
respeito do mundo social e, no caso específico, sua posição com relação ao aborto.
Uma visão que, por si só, não está garantida, caso contrário, ela não
precisaria atuar no terreno das decisões políticas.
Após a demonstração
da atuação do Movimento em Defesa da Vida neste processo, percebemos como a
Igreja e os movimentos vinculados a ela ao imporem sua visão contrária ao
aborto, desempenharam seu papel de legitimadores da ordem patriarcal, impedindo
a liberdade de escolha da mulher.
O poder simbólico é o
resultado (efeito) indireto da correlação de forças
e, no caso estudado, esse poder deu a vitória à visão de mundo da Igreja, ela
foi a vencedora, no momento em que impôs a definição legítima do aborto, e com
isso determinou que o Estado não deve oferecer um serviço de atendimento nos
casos de aborto legal.
[2]Em1998, houve eleições para presidente, governadores,
senadores e deputados federais e estaduais.
[3] O escritório central do Movimento Pró-Vida é a “Human Life
International” que tem sede em Maryland, nos Estados Unidos.
[4] MDV. Cartilha do
Movimento em Defesa da Vida. Porto Alegre: 1999.
[5] Op. cit.
[6] Optei aqui pela divisão e classificação dos representantes
do argumento contrário ao aborto como pro
life e dos representantes do argumento favorável como pro choice, classificação esta já utilizada por autores como Sagan
(1998) que tratam do tema e pelos próprios representantes das duas posições.
[7] De acordo com a embriologia, o primeiro produto da
fecundação é chamado de zigoto unicelular; durante a primeira semana de sua
existência, incluindo a sua implantação na parede uterina, a entidade
não-nascida é chamada de conceptus; o
termo embrião refere-se à entidade entre a segunda e a oitava semana; e feto é
um termo reservado para a entidade a partir das oito semanas de gestação até
seu nascimento (DWYER, Susan. Entendendo o Problema do Aborto. In: ROSENFIELD, Denis et al. Filosofia
Política: nova série 2, Porto
Alegre, p. 124-150, 1998).
[8] BARBERI, Piero. Aborto:
ponto de vista cristão. Petrópolis: Vozes, 1995.
[9] VARGA, Andrew C. Problemas
de Bioética. São Leopoldo: UNISINOS, 1990.
[10] MORI, Maurizio. A
moralidade do aborto. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997.
[11] FONSECA, Romy Medeiros da. In: CARVALHO, Nanci Valadares
de. A condição feminina.
Enciclopédia Aberta de Ciências Sociais. São Paulo: Vértice, 1988. OLIVEIRA,
Eleonora Menicucci de. Aborto/cidadania: tecendo a democracia. Espaço Feminino: revista do núcleo de
estudos de gênero e pesquisa sobre a mulher, Uberlândia, vol. 1, n. 1, 1994.
PRADO, Danda. O que é aborto. São
Paulo: Abril Cultural/Brasiliense, 1985. (Coleção Primeiros Passos). SCHOR,
Néia; ALVARENGA, Augusta T. O aborto: um resgate histórico e outros dados. Revista Brasileira de Crescimento e
Desenvolvimento Humano, v.1, n. 4, 1994. p. 18-22. VERARDO, Maria Thereza. Aborto: um direito ou um crime? São
Paulo: Moderna, 1987.
[12] Entende-se aqui aqueles que se posicionam em favor do direito de escolha e não em favor do aborto propriamente.
[13] A pílula do dia seguinte tem uma dose x de estrógeno e
progesterona, que combinadas não permitem o preparo das células para determinar
o desenvolvimento do óvulo e tem grande eficácia se tomada até 72 horas após a
relação sexual (ROLIM, Marcos. Aborto Legal: Décadas de Controvérsia. Jornal da AJURIS, Porto Alegre, p. 7, dez. 1998).
[14] ROLIM, Marcos. Uma Reflexão sobre o aborto. In: Dos Labirintos. Porto Alegre, RS,
Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, 1997.
[15] Op. cit., p.
49.
[16] MORI. Op.
cit., p.31. O autor refere-se
aqui ao movimento pela vida mundial, também conhecido como Pró-Vida.
[17] Estas ponderações estão presentes num dos pronunciamentos
feitos pelo parlamentar na sessão de votação da derrubada do veto, em 24 de
março de 1998. Os representantes do MDV informaram que parte das ponderações do
deputado foram reproduzidas pelo grupo em panfletos distribuídos à comunidade
no dia da votação.
[18] Membro da Associação dos Dirigentes de Empresas Cristãos,
com grande atuação no processo em questão.
[19] UMA BRECHA no SUS.
ZERO HORA, Porto Alegre, 05 dez. 1997. Reportagem Especial, p. 5.
[20] Grifos meus.
[21] MDV. Op. cit., 1999.
[22] Op. cit., 1998.
[23] ROLIM, Marcos. [Pronunciamentos]. In: Diário da Assembléia, Porto Alegre, ano 56, n. 7157, p. 71, 25 mar.
1998.
[24] GENOÍNO, José. Aspectos políticos sobre a questão do
aborto. In: CONSELHO NACIONAL DOS
DIREITOS DA MULHER. Quando a paciente é
mulher. Brasília: 1989. p. 63-64.
[25] ROSENFIELD, Denis. O problema do aborto. In: ROSENFIELD,
Denis et al. Filosofia Política:
nova série 2, Porto Alegre, p. 100, 1998.
[26] Neste caso, os membros do Movimento em Defesa da Vida.
[27] Esse conceito foi apropriado de BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: DIFEL, 1989.
Entendo aqui o trabalho realizado tanto por parte das igrejas e movimentos
ligados a elas, como o trabalho realizado pelas lideranças do movimento
feminista. Estas também realizam um trabalho
de representação que, neste caso, foi bem menos expressivo que o da Igreja.
É um trabalho que se efetiva em forma de palestras, missas, cultos, catequese,
divulgação das idéias das igrejas via jornal, televisão; os parlamentares em seus
discursos e as feministas também realizam esse trabalho em forma de palestras,
mobilizações, manifestações e eventos promovidos pelas diversas entidades
feministas.
[28] APROVADO aborto em hospitais públicos. ZERO HORA, Porto Alegre, 04 dez. 1997.
Reportagem Especial, p. 4.
[29] Diz respeito ao quadro dos parlamentares que ainda estavam
indecisos e dos que haviam manifestado a decisão de mudar o voto. Puggina na
época não desempenhava nenhuma função política no Legislativo, mas representava
e representa um importante nome dentro do PPB e também da Igreja católica.
[30] Jerson Garcia, voluntário do MDV.
[31] Principalmente, programas na Rádio Aliança FM de Porto
Alegre, que pertence à Igreja católica.
[32] Afirmo aqui que a atuação conjunta da igreja católica com o
MDV foi mais eficiente em virtude de sua visibilidade em se comparando com a
atuação das outras igrejas de um modo geral. Mais detalhes sobre a atuação da
igreja católica e também das evangélicas no processo, ver KALSING. Op. cit.,
2000.
[33] A Themis assessoria e estudos de Gênero é uma ONG que tem
sede em Porto Alegre e é composta por profissionais mulheres de diversas áreas
que prestam serviço voluntário.
[34] BOURDIEU, Pierre. O
poder simbólico. Lisboa: DIFEL, 1989.
[35] Neste caso, os padres, os pastores das Igrejas evangélicas,
os voluntários do Movimento em Defesa da Vida e outros movimentos ligados às
Igrejas, assim como os diversos movimentos sociais, presente neste conflito,
especificamente, o movimento feminista.
[36] Neste caso, os deputados do grupo parlamentar católico e os
somente católicos, os evangélicos, pastores e não.
[37] Op. cit.,
1989, p. 11-12.
[38] Op. cit.
[39] Op. cit., p.
14.
[40] Refiro-me aqui ao Parlamento.