Michael Löwy,
brasileiro, é sociólogo, pesquisador
do Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França e autor, entre
outros, de Revolta de Melancolia: O
romantismo na contra-mão da modernidade. Publicado no jornal Em Tempo.
A palavra “bárbaro” é de origem grega. Ela designava, na
Antigüidade, as nações não-gregas, consideradas primitivas, incultas, atrasadas
e brutais. A oposição entre civilização e barbárie é então antiga. Ela encontra
uma nova legitimidade na filosofia dos iluministas, e será herdada pela
esquerda. O termo “barbárie” tem, segundo o dicionário, dois significados
distintos, mas ligados: “falta de civilização” e “crueldade de bárbaro”. A
história do século 20 nos obriga a dissociar essas duas acepções e a refletir
sobre o conceito – aparentemente contraditório, mas de fato perfeitamente
coerente – de “barbárie civilizada”.
Em que consiste o “processo civilizador”? Como bem
demonstrou Norbert Elias, um de seus aspectos mais importantes é que a
violência não é mais exercida de maneira espontânea, irracional e emocional
pelos indivíduos, mas é monopolizada e centralizada pelo Estado, mais
precisamente, pelas forças armadas e pela polícia. Graças ao processo civilizador,
as emoções são controladas, o caminho da sociedade é pacificado e a coerção
física fica concentrada nas mãos do poder político[2].
O que Elias não parece ter percebido é o reverso dessa brilhante medalha: o
formidável potencial de violência acumulado pelo Estado... Inspirado por uma
filosofia otimista do progresso, ele podia escrever, ainda em 1939: “Comparada
ao furor do combate abissínio (...) ou daquelas tribos da época das grandes
migrações, a agressividade das nações mais belicosas do mundo civilizado parece
moderada (...); ela só se manifesta em sua força brutal e sem limites em sonho
e em alguns fenômenos que nós qualificamos de ‘patológicos’”.[3]
Alguns meses depois dessas linhas terem sido escritas,
começava uma guerra entre nações “civilizadas” cuja “força brutal e sem
limites” é simplesmente impossível de comparar com o pobre “furor” dos
combatentes etíopes, tamanha é a desproporção. O lado sinistro do “processo
civilizador” e da monopolização estatal da violência se manifestou em toda sua
terrível potência.
Se nós nos referimos ao segundo sentido da palavra “bárbaro”
– atos cruéis, desumanos, a produção deliberada de sofrimento e a morte
deliberada de não-combatentes (em particular, crianças) – nenhum século na
história conheceu manifestações de barbárie tão extensas, tão massivas e tão
sistemáticas quanto o século XX. Certamente, a história humana é rica em atos
bárbaros, cometidos tanto pelas nações “civilizadas” quanto pelas tribos
“selvagens”. A história moderna, depois da conquista das Américas, parece uma
sucessão de atos desse gênero: o massacre de indígenas das Américas, o tráfico
negreiro, as guerras coloniais. Trata-se de uma barbárie “civilizada”, isto é,
conduzida pelos impérios coloniais economicamente mais avançados.
Karl Marx era um dos críticos mais ferozes desses tipos de
práticas maléficas e destruidoras da modernidade, que para ele estão associadas
às necessidades de acumulação do capital. Em O Capital, especialmente no capítulo sobre a acumulação primitiva,
encontra-se uma crítica radical dos horrores da expansão colonial: a
escravização ou o extermínio dos indígenas, as guerras de conquista, o tráfico
de negros. Essas “barbáries e atrocidades execráveis” – que segundo Marx
(citando de modo favorável M.W. Howitt) “não têm paralelo em qualquer outra era
da história universal, em nenhuma raça por mais selvagem, grosseira, impiedosa
e sem pudor que ela tenha sido” – não foram simplesmente passadas aos lucros e
perdas do progresso histórico, mas devidamente denunciadas como uma “infâmia”[4].
Considerando algumas das manifestações mais sinistras do capitalismo, como as
leis dos pobres ou os workhouses –
estas “bastilhas de operários” –, Marx escreveu em 1847 esta passagem
surpreendente e profética, que parece anunciar a Escola de Frankfurt: “A
barbárie reapareceu, mas desta vez ela é engendrada no próprio seio da
civilização e é parte integrante dela. É a barbárie leprosa, a barbárie como
lepra da civilização”.[5]
Mas com o século XX, um limite é transgredido, passa-se a um
nível superior; a diferença é qualitativa. Trata-se de uma barbárie
especificamente moderna, do ponto de vista de seu etos, de sua ideologia, de seus meios, de sua estrutura. Nós
voltaremos a esse ponto.
A Primeira Guerra Mundial inaugurou esse novo estágio da
barbárie civilizada. Dois autores, os primeiros, soaram o sinal de alarme, em
1914-15: Roxa Luxemburgo e Franz Kafka. Apesar de suas evidentes diferenças,
eles têm em comum o fato de terem tido a intuição – cada um à sua maneira – de
alguma coisa sem precedente que estava para se constituir no curso daquela
guerra.
Ao usar a palavra de ordem “socialismo ou barbárie”, Rosa
Luxemburgo em A crise da
social-democracia, de 1915 (assinada com o pseudônimo “Junius”), rompeu com
a concepção – de origem burguesa, mas adotada pela Segunda Internacional – da
história como progresso irresistível, inevitável, “garantido” pelas leis
“objetivas” do desenvolvimento econômico ou da evolução social. Essa palavra de
ordem é sugerida por certos textos de Marx ou de Engels, mas é Rosa Luxemburgo
que dá a ela essa formulação explícita e elaborada. Ela implica uma percepção
da história como processo aberto, como série de “bifurcações”, onde o “fator
subjetivo” – consciência, organização, iniciativa – dos oprimidos tornam-se
decisivos. Não se trata mais de esperar que o fruto “amadureça”, segundo as
“leis naturais” da economia ou da história, mas de agir antes que seja tarde
demais.
Porque o outro lado da alternativa é um sinistro perigo: a
barbárie. Em um primeiro momento ela parece considerar a “recaída na barbárie”
como “a aniquilação da civilização”, uma decadência análoga àquela da Roma
antiga[6].
Mas logo ela se dá conta que não se trata de uma impossível “regressão” a um
passado tribal, primitivo ou “selvagem”, mas antes, de uma barbárie
eminentemente moderna, da qual a Primeira Guerra Mundial dá um exemplo
surpreendente, bem pior em sua desumanidade assassina que as práticas
guerreiras dos conquistadores “bárbaros” do fim do Império Romano. Jamais no
passado tecnologias tão modernas – os tanques, o gás, a aviação militar –
tinham sido colocadas ao serviço de uma política imperialista de massacre e de
agressão em uma escala tão imensa.
As intuições de Kafka são de uma natureza totalmente
diferente. É sob a forma literária e imaginária que ele descreve a nova
barbárie. Trata-se de uma novela intitulada A
colônia penal: em uma colônia francesa, um soldado “indígena” é condenado à
morte por oficiais cuja doutrina jurídica resume em poucas palavras a
quintessência do arbitrário: “a culpabilidade não deve jamais ser colocada em
dúvida!”. Sua execução deve ser cumprida por uma máquina de tortura que escreve
lentamente sobre seu corpo com agulhas que o atravessam a frase “Honra teus
superiores”.
O personagem central da novela não é nem o viajante que
observa os acontecimentos com uma hostilidade muda, nem o prisioneiro, que não
reage de modo nenhum, nem o oficial que preside a execução, nem o comandante da
colônia. É a máquina mesma.
Toda a narrativa gira em torno desse sinistro aparelho (Apparat), que parece mais e mais, no
curso da explicação detalhada que o oficial dá ao viajante, como um fim em si
mesmo. O Aparelho não está lá para executar o homem, é sobretudo este que está
lá pelo Aparelho, para fornecer um corpo sobre o qual ele possa escrever sua
obra-prima estética, sua inscrição sangrenta ilustrada de “muitos florilégios e
ornamentos”. O oficial mesmo é apenas um servidor da Máquina e, finalmente, ele
mesmo se sacrifica à esse insaciável Moloch[7]6.
Em que “máquina de poder” bárbara, em que “aparelho da
autoridade” sacrificador de vidas humanas, pensava Kafka? A colônia penal foi escrita em outubro de 1914, três meses após a
eclosão da grande guerra. Há poucos textos na literatura universal que
apresentam de maneira tão penetrante a lógica mortífera da barbárie moderna
como mecanismo impessoal.
Esses pressentimentos parecem se perder nos anos do
pós-guerra. Walter Benjamin é um dos raros pensadores marxistas a compreender
que o progresso técnico e industrial pode ser portador de catástrofes sem
precedentes. Daí seu pessimismo – não fatalista, mas ativo e revolucionário. Em
um artigo de 1929 ele definia a política revolucionária como “a organização do
pessimismo” – um pessimismo em todas as linhas: desconfiança quanto ao destino
da liberdade, desconfiança quanto ao destino do povo europeu. E acrescenta
ironicamente: “confiança ilimitada somente no IG Farben e no aperfeiçoamento
pacífico da Luftwaffe”[8].
Ora, mesmo Benjamin, o mais pessimista de todos, não podia adivinhar a que
ponto essas duas instituições iriam mostrar, alguns anos mais tarde, a
capacidade maléfica e destrutiva da modernidade[9].
Pode-se definir como propriamente moderna a barbárie que
apresenta as seguintes características:
- Utilização de meios técnicos modernos. Industrialização do
homicídio. Exterminação em massa graças às tecnologias científicas de ponta.
- Impessoalidade do massacre. Populações inteiras – homens e
mulheres, crianças e idosos – são “eliminados”, com o menor contato pessoal
possível entre quem toma a decisão e as vítimas.
- Gestão burocrática, administrativa, eficaz, planificada,
“racional” (em termos instrumentais) dos atos bárbaros.
- Ideologia legitimadora do tipo moderno: “biológica”,
“higiênica”, “científica” (e não religiosa ou tradicionalista)
- Todos os crimes contra a humanidade, genocídios e
massacres do século XX não são modernos no mesmo grau: o genocídio dos armênios
em 1915, o genocídio levado a cabo pelo Pol Pot no Camboja, aquele dos tutsis
em Ruanda etc. associam, cada um de maneira específica, traços modernos e
traços arcaicos.
Os quatro massacres que encarnam de maneira mais acabada a
modernidade da barbárie são o genocídio nazista contra os judeus e os ciganos,
a bomba atômica em Hiroshima, o Goulag
estalinista e a guerra norte-americana no Vietnã. Os dois primeiros são
provavelmente os mais integralmente modernos: as câmaras de gás nazistas e a
morte atômica norte-americana contêm praticamente todos os ingredientes da
barbárie tecno-burocrata moderna.
Auschwitz representa a modernidade não somente pela sua
estrutura de fábrica de morte, cientificamente organizada e que utiliza as
técnicas mais eficazes. O genocídio dos judeus e dos ciganos é também, como
observa o sociólogo Zygmunt Bauman, um produto típico da cultura racional burocrática,
que elimina da gestão administrativa toda interferência moral. Ele é, deste
ponto de vista, um dos possíveis resultados do processo civilizador como
racionalização e centralização da violência e como produção social da
indiferença moral. “Como toda outra ação conduzida de maneira moderna –
racional, planificada, cientificamente informada, gerida de forma eficaz e
coordenada – o Holocausto deixou para trás todos seus pretensos equivalentes
pré-modernos, revelando-os em comparação como primitivos, esbanjadores e
ineficazes. (...) Ele se eleva muito acima dos episódios de genocídio do
passado, da mesma forma que a fábrica industrial moderna está bem acima da
oficina artesanal....”[10]
A ideologia legitimadora do genocídio é ela também de tipo
moderno, pseudo-científico, biológico, antropométrico, eugenista. A utilização
obsessiva de fórmulas pseudo-medicinais é característica do discurso
anti-semita dos dirigentes nazistas, o que pode ser notado nas conversações
privadas deles. Numa carta a Himmler em 1942, Adolf Hitler insistia: “A batalha
na qual nós estamos engajados hoje é do mesmo tipo que a batalha liderada, no
século passado, por Pasteur e Koch. Quantas doenças não tiveram sua origem no
vírus judeu... Nós não encontraremos nossa saúde sem eliminar os judeus”[11].
Em seu notável ensaio sobre Auschwitz[12],
Enzo Traverso destaca, com palavras sóbrias, precisas e lúcidas, o contexto do
genocídio. Não se trata nem de uma simples “resistência irracional à
modernização”, nem de um resíduo de barbárie antiga, mas de uma manifestação
patológica da modernidade, do rosto escondido, infernal, da civilização
ocidental, de uma barbárie industrial, tecnológica, “racional” (do ponto de
vista instrumental). Tanto a motivação decisiva do genocídio – a biologia
racial – quanto suas formas de realização – as câmaras de gás – eram
perfeitamente modernas. Se a racionalidade instrumental não basta para explicar
Auschwitz, ela é sua condição necessária e indispensável. Encontra-se nos meios
de exterminação nazistas uma combinação de diferentes instituições típicas da
modernidade: ao mesmo tempo, a prisão descrita por Foucault, a fábrica
capitalista da qual falava Marx, “a organização científica do trabalho” de
Taylor, a administração racional/burocrática segundo Max Weber.
Este último tinha intuído, como sublinha Marcuse, a
transformação da razão ocidental em força destrutiva. Sua análise da burocracia
como máquina “desumanizada”, impessoal, sem amor nem paixão, indiferente a tudo
aquilo que não é sua tarefa hierárquica, é essencial para compreender a lógica
reificada dos campos da morte. Isso vale também para a fábrica capitalista, que
estava presente em Auschwitz, ao mesmo tempo nas oficinas de trabalho escravo
da empresa IG Farben e nas câmaras à gás, lugares de produção “em cadeia” de
mortos. Mas a “solução final” é irredutível à toda lógica econômica: a morte
não é nem uma mercadoria, nem uma fonte de lucro.
Traverso critica, de maneira muito convincente, as
interpretações – inspiradas, em um grau ou outro, pela ideologia do progresso –
do nazismo e do genocídio como produto da história do irracionalismo alemão
(Georges Lukács), de uma “saída” da Alemanha para fora do berço ocidental
(Jürgen Habermas) ou de um movimento de “descivilização” (Entzivilisierung) inspirado por uma ideologia “pré-industrial”
(Norbert Elias). Se o processo civilizador significa, antes de tudo, a
monopolização pelo estado da violência – como o mostram, depois de Hobbes,
tanto Weber quanto Elias – é necessário reconhecer que a violência do Estado
está na origem de todos os genocídios do século XX. Auschwitz não representa
uma “regressão” em direção ao passado, em direção a uma idade bárbara
primordial, mas é realmente um dos rostos possíveis da civilização industrial
ocidental. Ele constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a herança humanista e
universalista dos Iluministas e um exemplo terrível das potencialidades
negativas e destrutivas de nossa civilização.
Se o extermínio dos judeus pelo Terceiro Reich é comparável
a outros atos bárbaros, nem por isso ele deixa de ser um evento singular. É
necessário recusar as interpretações que eliminam as diferenças entre Auschwitz
e os campos soviéticos, ou os massacres coloniais, os pogroms etc.[13].
O crime de guerra que tem mais afinidades com Auschwitz é Hiroshima, como
compreenderam tão bem Günther Anders e Dwight MacDonald: nos dois casos
delega-se a tarefa a uma máquina de morte formidavelmente moderna, tecnológica
e “racional”. Mas as diferenças são fundamentais. Inicialmente, as autoridades
americanas não tiveram jamais como objetivo – como aquelas do Terceiro Reich –
realizar o genocídio de toda uma população: no caso das cidades japonesas, o
massacre não era, como nos campos nazistas, um fim em si mesmo, mas um simples
“meio” para atingir objetivos políticos. O objetivo da bomba atômica não era o
extermínio da população japonesa como fim autônomo. Tratava-se sobretudo de
acelerar o fim da guerra e demonstrar a supremacia militar americana face à
União Soviética. Em um relatório secreto de maio de 1945 ao presidente Truman,
o Target Committee – o “Comitê de
Alvo”, composto pelos generais Groves, Norstadt e do matemático Von Neumann –
observa friamente: “A morte e a destruição irão não somente intimidar os
japoneses sobreviventes a fazer pressão pela capitulação mas também (a bônus) assustar a União Soviética. Em
síntese, a América poderia terminar mais rapidamente a guerra e, ao mesmo
tempo, ajudar à moldar o mundo do pós-guerra”[14]13.
Para obter esses objetivos políticos, a ciência e a tecnologia mais avançadas
foram utilizadas e centenas de milhares de civis inocentes, homens, mulheres e
crianças foram massacrados – sem falar da contaminação pela irradiação nuclear
das gerações futuras.
Uma outra diferença com Auschwitz é, sem dúvida, o número
bem inferior de vítimas. Mas a comparação das duas formas de barbárie
burocrático-militar é muito pertinente. Os próprios dirigentes americanos
estavam conscientes do paralelo com os crimes nazistas: em uma conversa com
Truman no dia 6 de junho de 1945, o secretário de Estado, Stimson, relatava
seus sentimentos: “Eu disse a ele que estava inquieto com esse aspecto da
guerra... porque eu não queria que os americanos ganhassem a reputação de
ultrapassar Hitler em atrocidade”[15].
Em muitos aspectos, Hiroshima representa um nível superior
de modernidade, tanto pela novidade científica e tecnológica representada pela
arma atômica, quanto pelo caráter ainda mais distante, impessoal, puramente
“técnico” do ato exterminador: pressionar um botão, abrir a escotilha que
liberta a carga nuclear. No contexto próprio e asséptico da morte atômica
entregue pela via aérea, deixou-se para trás certas formas manifestamente
arcaicas do Terceiro Reich, como as explosões de crueldade, o sadismo e a fúria
assassina dos oficiais da SS. Essa modernidade se encontra na cúpula
norte-americana que toma – após ter cuidadosa e “racionalmente” pesado os prós
e os contras – a decisão de exterminar a população de Hiroshima e Nagasaki: um
organograma burocrático complexo composto por cientistas, generais, técnicos, funcionários
e políticos tão cinzentos quanto Harry Truman, em contraste com os acessos de
ódio irracional de Adolf Hitler e seus fanáticos.
No curso dos debates que precederam a decisão de lançar a
bomba, certos oficiais, como o general Marshall, declararam suas reservas, à
medida em que eles defendiam o antigo código militar, a concepção tradicional
da guerra, que não admitia o massacre intencional de civis. Eles foram vencidos
por um ponto de vista novo, mais “moderno”, fascinado pela novidade científica
e técnica da arma atômica, um ponto de vista que não tinha nada a ver com
códigos militares arcaicos e que não se interessava senão pelo cálculo de
lucros e perdas, isto é, em critérios de eficácia político-militar[16].
Seria necessário acrescentar que um certo número de cientistas que tinham
participado, por convicção antifascista, nos trabalhos de preparação da arma
atômica, protestaram contra a utilização de suas descobertas contra a população
civil das cidades japonesas.
Uma palavra sobre o Goulag estalinista: se há muito em comum
com Auschwitz – sistema concentracionário, regime totalitário, milhões de
vítimas – ele se distingue pelo fato que o objetivo dos campos soviéticos não
era o extermínio dos prisioneiros mas sua exploração brutal como força de trabalho
escrava. Em outras palavras: pode-se comparar Kolyma e Buchenwald, mas não o
Goulag e Treblinka. Nenhuma contabilidade macabra – como aquela fabricada por
Stéphane Courtois e outros anticomunistas profissionais – pode apagar essa
diferença.
O Goulag era uma forma de barbárie moderna na medida em que
era burocraticamente administrado por um Estado totalitário e colocado ao
serviço de projetos estalinistas faraônicos de “modernização” econômica da
União Soviética. Mas ele se caracteriza também por traços mais “primitivos”:
corrupção, ineficácia, arbitrariedade, “irracionalidade”. Ele se situa por essa
razão em um degrau de modernidade inferior ao sistema concentracionário do
Terceiro Reich.
Enfim, a guerra americana no Vietnã, atroz pelo número de vítimas
civis exterminadas pelos bombardeios, o napalm
ou as execuções coletivas, constitui, em vários aspectos, uma intervenção
extremamente moderna: fundada sobre uma planificação “racional” – com a
utilização de computadores, e de um exército de especialistas – ela mobiliza um
armamento muito sofisticado, na ponta do progresso técnico dos anos 60 e 70:
B-52, napalm, herbicidas, bombas à
fragmentação etc.[17]
Essa guerra não foi um conflito colonial como os outros:
bastava lembrar que a quantidade de bombas e explosivos lançados sobre o Vietnã
foi superior àquela utilizada por todos os beligerantes durante a Segunda
Guerra Mundial! Como no caso de Hiroshima, o massacre não era um objetivo em
si, mas um meio político; e se a cifra de mortos é bem superior àquela das duas
cidades japonesas, não se encontra no Vietnã aquela perfeição da modernidade
técnica e impessoal, aquela abstração científica da morte que caracteriza a
morte atômica”[18].
A natureza contraditória do “progresso” e da “civilização”
moderna se encontra no coração das reflexões da Escola de Frankfurt. Em Dialética do Iluminismo (1944), Adorno e
Horkheimer constatam a tendência da racionalidade instrumental de se
transformar em loucura assassina: a “luminosidade gelada” da razão calculista
“carrega a semente da barbárie”. Em uma nota redigida em 1945 para Minima Moralia, Adorno utiliza a
expressão “progresso regressivo” tentando de dar conta da natureza paradoxal da
civilização moderna.[19]
Entretanto, essas expressões ainda são tributárias, apesar
de tudo, da filosofia do progresso. Na verdade, Auschwitz e Hiroshima não são
em nada uma “regressão à barbárie” – ou mesmo uma “regressão”: não há nada no
passado que seja comparável à produção industrial, científica, anônima e
racionalmente administrada da morte em nossa época. Basta comparar Auschwitz e
Hiroshima com as práticas guerreiras das tribos bárbaras do século IV para se
dar conta que eles não têm nada em comum: a diferença não é somente na escala,
mas na natureza. É possível comparar as práticas mais “ferozes” dos “selvagens”
– morte ritual do prisioneiro de guerra, canibalismo, redução das cabeças etc.
– com uma câmara de gás ou uma bomba atômica? São fenômenos inteiramente novos,
que não seriam possíveis a não ser no século XX.
As atrocidades de massa, tecnologicamente aperfeiçoadas e
burocraticamente organizadas, pertencem unicamente à nossa civilização
industrial avançada. Auschwitz e Hiroshima não são mais “regressões”: são
crimes irremediavelmente e exclusivamente modernos.
Existe entretanto um domínio específico da “barbárie
civilizada” em que se pode efetivamente falar de regressão: a tortura. Como
destaca Eric Hobsbawn em seu admirável ensaio de 1994, “Barbárie: um guia para
o usuário”: “A partir de 1782 a tortura foi formalmente eliminada do
procedimento judiciário dos países civilizados. Em teoria, ela não era mais
tolerada nos aparelhos coercitivos do Estado. O preconceito contra essa prática
era tão forte que ela não pôde retornar após a derrota da Revolução Francesa
que a havia seguramente abolido (...) Pode-se suspeitar que nos redutos da
barbárie tradicional, que resistem ao progresso moral – por exemplo as prisões
militares ou outras instituições análogas – ela de fato não desapareceu...”
Ora, no século XX, sob o fascismo e o estalinismo, nas guerras coloniais –
Argélia, Irlanda etc. – e nas ditaduras latino-americanas, a tortura é de novo
empregada em grande escala[20].
Os métodos são diferentes – a eletricidade substitui o fogo
e os torniquetes – mas a tortura de prisioneiros políticos tornou-se, no curso
do século XX, uma prática rotineira – mesmo se não-oficial – de regimes
totalitários, ditatoriais, e mesmo, em certos casos (as guerras coloniais),
“democráticos”. Nesse caso, o termo “regressão” é pertinente, na medida em que
a tortura era praticada em inúmeras sociedades pré-modernas, e também na
Europa, da Idade Média até o século XVIII. Um uso bárbaro que o processo
civilizador parecia ter suprimido no curso do século XIX voltou no século XX,
sob uma forma mais “moderna” – do ponto de vista das técnicas – mas não menos
desumana.
Levar em conta a barbárie moderna do século XX exige o
abandono da ideologia do progresso linear. Isso não quer dizer que o progresso
técnico e científico é intrinsecamente portador de malefício – nem tampouco o
inverso. Simplesmente, a barbárie é uma das manifestações possíveis da
civilização industrial/capitalista moderna – ou de sua cópia “socialista”
burocrática.
Não se trata também de reduzir a história do século XX a
seus momentos bárbaros: essa história conheceu também a esperança, as
sublevações dos oprimidos, as solidariedades internacionais, os combates
revolucionários: México, 1914; Petrogrado, 1917; Budapeste, 1919; Barcelona,
1936; Paris, 1944; Budapeste, 1956; Havana, 1961; Paris, 1968; Lisboa, 1974;
Manágua, 1979; Chiapas, 1994; foram alguns dos momentos fortes – mesmo se
efêmeros – dessa dimensão emancipadora do século. Eles constituem pontos de
apoio preciosos à luta das gerações futuras por uma sociedade humana e
solidária. (Tradução: Alessandra
Ceregatti).
[2] Norbert
Elias, La Dynamique de l’Occident,
Paris, Calmann-Lévy, 1975, pp.181-190. A
referência ao combate abissínio soa estranha no momento em que a Etiópia
combatia pela sua liberdade contra a invasão colonial do fascismo italiano,
portador de uma pretensa missão “civilizadora”.
[3] Norbert
Elias, La civilisation des moeurs,
Paris, Calmann-Lévy, 1973, p.280.
[4] Marx, Le Capital, vol. I, p.557-558,
563.
[5] K. Marx,
“Arbeitslohn”, 1847, Kleine Ökonomische
Schriften, Berlin, Dietz Verlag, 1955, p.245.
[6] R. Luxemburgo, A
crise da social-democracia, 1915.
[7] Kafka, “In der
Strafkolonie”, Erzählung und kleine Prosa,
N. York, Schocken Books, 1946, pp.181-113.
[8] W. Benjamin, “O surrealismo. O último instante de
inteligência européia”, 1929. Mythe et
violence, Paris, Letras Novas, 1971, p.312
[9] Lembremos que o grande truste químico IG Farben não somente
utilizou massivamente a mão-de-obra escrava em Auschwitz mas também produziu o
gás Zyklotron B, que servia para exterminar as vítimas do sistema
concentracionário.
[10] Zygmut Bauman,
Modernity and the Holocaust, London,
Polity Press, 1989, p.15, 28.
[11] Citado por
Zygmunt Bauman, op.cit, p.71
[12] Enzo Traverso, L’Histoire
déchirée. Essai sur Auschwitz et les intellectuels, Paris, Cerf, 1997
[13] Sobre esse assunto, remeto à excelente colocação de Enzo
Traverso, “A singularidade de Auschwitz. Hipóteses, problemas e derivações da
pesquisa histórica”. Pour une
critique de la barbarie moderne. Ecrits sur l’histoire des Juifs e de l’antisémitisme, Lausanne, Ed. Page deux, 1997.
[14] Citado dos arquivos históricos recentemente abertos ao
público em Barton J. Bernstein, “The Atomic Bombings Reconsidered”, Foreign Affairs, fevereiro 1995, p. 143.
[15] Ibid, p.146.
[16] Sobre as reservas de Marshall, cf. Barton J. Bernstein, Op.cit, p.143.
[17] De fato, é inteiramente racional se a “razão” significa
racionalidade instrumental, aplicar a força militar norte-americana, os B-52, o
napalm e todo o resto no Vietnã “sob dominação comunista” (claramente um
“objeto indesejável”), como o “operador” para o transformar em “objeto
desejável”. Joseph Weizenbaum, “Computer Power and Human Reason”. From Judgmente
to Calculation, S. Francisco, W.H. Freeman, 1976, p.252
[18] Outras guerras coloniais tiveram lugar no século XX – na
Indochina, na Argélia, na África colonial portuguesa etc., mas nenhuma atingiu
o grau de modernidade como aquela do Vietnã. Em comparação, elas parecem
arcaicas, primitivas.
[19] T.W.Adorno,
M. Horkheimer, La Dialectique de la
raison, Paris, Gallimard, 1974, p.48 e T.W. Adorno, Minima Moralia, Paris, Payot, 1983, p.134
[20] E. Hobsbawn, Barbarism: An User’s Guide. On History, London, Weidenfelds and Nicholson, 1997, pp.259-263.
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