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IDH
Por que idolatrar o Índice de Desenvolvimento Humano?

Salvatore Santagada,
Sociólogo da Fundação de Economia e Estatística (FEE).
Presidente do Sindicato dos sociólogos do Rio grande do Sul (SINSOCIÓLOGOS/RS)

Em função de sua complexidade, a sociedade moderna produz, a todo o momento, um manancial inesgotável de informações estatísticas. Várias instituições que dão ênfase à mensuração da qualidade de vida têm realizado esforços, desde a Segunda Guerra Mundial, para construir um sistema de estatísticas sociais e demográficas com a finalidade de buscar a superação das análises econômicas. Nas primeiras décadas do século XX, esses estudos utilizaram vários instrumentos técnicos de aferição, dentre eles, barômetros estatísticos, índices de difusão e indicadores. O indicador básico para acompanhar o desenvolvimento de um país era o seu Produto Interno Bruto (PIB) e o PIB per capita.

Para superar essas análises estritamente econômicas, a Organização das Nações Unidas (ONU) construiu indicadores sociais que procuram cobrir as diferentes dimensões do desenvolvimento humano. A entidade informa, pioneiramente, desde 1990, que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) resulta da combinação da longevidade (expectativa de vida), da educação (taxa de alfabetização e taxa bruta combinadas com matrículas nos ensinos básico, intermediário e superior) e da renda (PIB per capita ). Um pequeno grupo de indicadores, construídos para um grande número de países que se encontram em graus diferenciados de desenvolvimento socioeconômico.

O Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2004, divulgado em julho último, apresenta o Brasil no 72 o lugar entre 177 países, com índice de 0,775 no IDH, portanto, no grupo das nações com desenvolvimento humano médio, que é de 0,500 a 0,800. Já no Relatório de 2003, o Brasil aparecia na 65ª posição, performance esta que não pode ser comparada com a deste ano, em função de retificação ocorrida na taxa de alfabetização da dimensão educação do Brasil. No último Relatório, aparece a taxa de alfabetização de 86,4%, ou 13,6% de analfabetismo, conforme o Censo 2000, enquanto, no documento de 2003, foi utilizada uma estimativa referente ao ano de 2001, que indicava uma taxa de analfabetismo menor. Ainda assim, a dimensão educação continua sendo aquela em que o Brasil tem seu melhor desempenho.

Esses dados, logicamente, acabaram servindo de munição para um embate na mídia, entre o atual Governo brasileiro e o anterior, em torno de uma suposta ou não evolução do IDH brasileiro no período. A verdade é que o debate se apresenta distorcido, já que, mesmo o Brasil permanecendo entre os países de médio desenvolvimento, próximo de passar para o grupo de alto desenvolvimento, se verifica que os diferentes instrumentos de mensuração das condições de vida da população brasileira, sejam eles nacionais, sejam internacionais, têm demonstrado que o País, embora apresente níveis altos de riqueza para uma minoria da população e seja a décima quinta economia do planeta, continua a manter patamares inaceitáveis de pobreza.Isso porque nada mais nada menos que 54 milhões de brasileiros integravam famílias com renda média per capita de até meio salário mínimo em 2001, fazendo frente a uma alta concentração de renda, já que a parcela de rendimentos dos 10% mais ricos se apresentava 18 vezes superiores aos rendimentos dos 40% mais pobres em 2002.

Conforme Hazel Henderson, em sua obra Transcendendo a Economia, deve-se buscar novos grupos de indicadores cobrindo as diferentes dimensões do desenvolvimento e do bem-estar, para não se cair novamente na “fetichização” e idolatria do índice único, como outrora ocorreu com o endeusamento do PIB.