
ORIGENS E FORMAÇÃO DO SINDICATO
DOS SOCIÓLOGOS DO ESTADO DE SÃO PAULO
Sergio S. Mattos (*)
[18/05/2003]
Os trabalhadores querem estar no centro do poder. Esta é a
perspectiva da história atual, no Brasil.
O sociólogo, cientista e profissional liberal que estuda as origens,
desenvolvimento, estrutura e modos de vida, relações das
sociedades humanas, e que atua nos mais diferentes campos da sociedade,
como educação, planejamento, pesquisa, produção
científica e análise, todas atividades com base na realidade
social e política, têm a construção do seu
sindicato no Estado de São Paulo, de maneira muito recente.
É indispensável acrescentar que apenas na década
de 80 a profissão de Sociólogo foi regulamentada
. A partir de 1961 começaram a tramitar no Senado e na Câmara
projetos de regulamentação da profissão de
Sociólogo. Em 1961, Projeto do deputado Aniz Badra; em 1971,
Projeto do Deputado Francisco Amaral; em 1974, Projeto do Senador
Vasconcelos Torres. A profissão só veio a ser regulamentada,
através da Lei no. 6.888, de 10-12-80, sancionada na integra
pelo então presidente da Republica o general João
Batista Figueiredo. A Lei no. 6.888, reconhece a profissão
de sociólogo, e dispõe sobre o exercício da
profissão de Sociólogo. O exercício da profissão
requer prévio registro no órgão competente
do Ministério do Trabalho. As funções de registrar,
emitir carteira, fiscalizar e disciplinar a profissão, deveriam
ser de Conselhos de âmbito federal e regional , como entidades
de personalidade jurídica de direito público, e não
do Ministério do Trabalho. Esta omissão nos parece
uma lacuna da lei que regulamentou a profissão, pois normalmente
os conselhos são criados pela própria lei que regulamenta
a atividade profissional.
Um estudo do sociólogo e professor de direito da Faculdade
de Filosofia e Sociologia do Rio de Janeiro, Dr. Evaristo de Moraes
Filho, "A
Regulamentação da Profissão dos Sociólogos",
trata com profundidade técnica aspectos da estruturação
da lei, abordando também as possibilidades de criação
de conselhos. Pelo caráter inovador e pela influencia que exerceu
nas ciências sociais e na ciência jurídica em geral
no Brasil, constitui fonte obrigatória para o estudo da regulamentação
e reconhecimento profissional do Sociólogo (FILHO, Moraes de
Evaristo, A Regulamentação da Profissão dos Sociólogos,
mimeo, 1981).
São também valiosos para o entendimento da construção
do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo,
e da questão da regulamentação da profissão
os passos seguintes na construção e consolidação
da profissão.
Em 1983, o então Ministro do Trabalho Murilo Macedo edita
a Portaria de no. 3.230 de 15 de dezembro desse ano, que enquadra
a profissão de Sociólogo no 31o. grupo da Confederação
Nacional dos Profissionais Liberais - CNPL. O itinerário
deste processo deixa antever ,paradoxalmente, a existência
do ensino de Sociologia no Brasil desde 1925, e o reconhecimento
da profissão pela Organização Internacional
do Trabalho desde 1952.
Cabe destacar que a história do Sindicato dos Sociólogos
do Estado de São Paulo não é apenas a história
do modo como se constituiu sua formação, mas sobretudo
de um patrimônio de lutas, de um papel tenso, rico e contraditório,
diante de uma realidade múltipla e complexa, relacionada às
condições de inserção dos sociólogos
no mundo do trabalho.
A primazia conferida ao sindicato de representação no segmento
profissional, não exclui os sociólogos paulistas de outras
formas organizativas e de expressão profissional.
Os sociólogos, no Estado de São Paulo, estão
organizados através de duas entidades, no caso uma entidade
civil , a Associação de Sociólogos do Estado
de São Paulo, e uma entidade profissional e sindical, o
Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo.
Ambas se diferenciam em sua natureza, mas convergem em muitos de
seus papéis. O Sindicato é uma entidade voltada as
preocupações centrais da realidade do trabalho, procurando
antever e intervir criticamente nas questões profissionais.
Têm o poder de representar juridicamente, em questões
trabalhistas, os seus associados. O Sindicato enquanto órgão
de representação profissional em tudo o que se refere às
condições profissional, dispõe de poder normativo,
ou seja, de estabelecer acordos ou decisões em beneficio
do conjunto da categoria profissional. A Associação, é uma
entidade civil, que agrega desde 1971 muitos dos nomes mais expressivos
da Sociologia brasileira, cumpre o importante papel de expressão
política e científica, e foi a força histórica
catalisadora na construção do sindicato.
Os sociólogos, como profissionais com especificidades próprias,
atuam e desenvolvem atividades docentes e técnicas. O trabalho
desenvolvido pelo sociólogo caracteriza-se por ser predominantemente
intelectual. A categoria profissional sociólogo, compreende
uma parcela destacada - os chamados "intelectuais" que
desenvolvem a produção teórica, dentro de
Universidades e outros espaços, e uma grande parcela que
exerce no cotidiano a profissão. O sindicato contempla todos
estes aspectos da diversidade profissional de atuação
e inserção no mercado de trabalho.
Numa abordagem histórica, a formação do sindicato
pode ser vista pelo relacionamento contínuo e progressivo
com a ASESP e no imbricado processo pela regulamentação
da profissão. É particularmente valiosa a história
e os resultados da Asesp. O Sindicato distingue-se, entretanto,
da entidade civil em diversos aspectos. As inquietações,
aspirações de parcelas de sociólogos, ameaçadas
no cotidiano de trabalho, toma forma nos debates sobre a construção
do sindicato, a partir do I Congresso Estadual dos Sociólogos
realizado na Universidade de São Paulo, entre os dias 12
e 15 de agosto, cujo tema foi “O Sociólogo e o Futuro da
Democracia no Brasil: Condições e Possibilidades”.
Um amplo e intenso debate intelectual, no final de 1980, desencadeado
no âmbito da categoria profissional, muito acentuado com
a conjuntura , precedeu a formação do sindicato.
Um ano após, ou seja, em 1981, durante a preparação
do I Congresso Estadual dos Sociólogos do Estado de São
Paulo, é constituído um grupo de profissionais, que
passam a promover uma série de debates visando à formação
de uma entidade sindical. Este grupo de ativos sociólogos,
composto por Maria Silvia P. de Castro, Silvia Orlandi, Cacilda
Maria Asciutti, Adauto Durighan , Ivan , dentre outros , com vivência
e intersecção com o movimento sindical, passa a se
reunir quinzenalmente na sede da Associação dos Sociólogos
do Estado de São Paulo. Neste mesmo ano,ou seja, em setembro
de 1981, é realizado o IV Congresso Nacional de Sociólogos,
que estabelece como prioridade na organização dos
profissionais sociólogos, à criação
de sindicatos em todo o país.
Em abril de 1982 ocorre em São Paulo, uma reunião
de caráter deliberativo, que definiu favoravelmente a criação
de um sindicato de sociólogos e a constituição
de uma comissão pró-sindicato. Em 22 de agosto de
1982 os sociólogos paulistas, decidem-se pela criação
da Associação Profissional dos Sociólogos
do Estado de São Paulo, estágio obrigatório
na época (de acordo com a CLT) para a constituição
do sindicato e solicitação da "carta sindical".
Finalmente, em 1 de outubro de 1982 é criada a Associação
Profissional dos Sociólogos do Estado de São Paulo.
O Sindicato, conseqüência de um processo e do importante
papel desempenhado pela Asesp, surge como agente qualificado e
como expressão de vontades democráticas, enquanto
um desdobramento da entidade pré-sindical que o precede,
a Associação Profissional dos Sociólogos do
Estado de São Paulo, fundada em 1 de outubro de 1982, e
estágio obrigatório na época (de acordo com
a CLT) para a constituição do sindicato e solicitação
da "carta sindical".
A Associação Profissional dos Sociólogos
foi o estagio obrigatório por que passou o sindicato antes
de adquirir sua personalidade jurídica própria. O
enquadramento sindical da categoria como profissional liberal ocorre
em 1983. Finalmente, em 1985 a Associação Profissional
dos Sociólogos do Estado de São Paulo é convertida
em Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo,
quando o Ministro do Trabalho expede a carta de reconhecimento
em que especifica a representação profissional e
indica a base territorial de atuação.
Recentemente, alguns estudos aprofundaram e refizeram criticamente
a interpretação das formas de organização
dos sociólogos. São os trabalhos "Considerações
sobre a formação da Asesp e a Profissionalização
do Sociólogo" (MATTOS, S.Sergio, 1993) , "Sociólogos
e Sociologia: Breve Cronologia da História da Ciência,
da Organização Estadual e Nacional e da Profissionalização
no Brasil" (CARVALHO, M. G. Lejeune e MATTOS, S. Sergio, 1997).
A história do surgimento e desenvolvimento do Sindicato
dos Sociólogos do Estado de São Paulo mostra que
os motivos principais de construção do sindicato
foram à necessidade de uma entidade com o poder de representar
juridicamente a categoria, como também de fiscalização
e defesa do exercício profissional.
Outro importante estimulo à criação do Sindicato
foi a capacidade e poder de representação coletiva
e de cumprimento das convenções coletivas tendo em
vista interesses relativos à atividade profissional.
Um traço característico na organização
dos sociólogos já demonstrado em estudos anterior, é que
os sociólogos em sua forma de organização
optaram inicialmente por entidades de caráter civil.
Somente anos de luta é que possibilitaram a criação
e o reconhecimento efetivo do sindicato. Percorrendo o caminho
desde a sua criação até os nossos dias é possível
reconhecer o patrimônio histórico de lutas e as contribuições
críticas .
A primeira diretoria "provisória" da Associação
Profissional dos Sociólogos do Estado de São Paulo,
eleita em assembléia em 1 de outubro de 1982, para o triênio
1982-1985, teve como presidente o sociólogo da área
de Recursos Humanos do Banespa , Adauto José Durighan.
Ao longo de sua existência o Sindicato dos Sociólogos
do Estado de São Paulo, teve a condução, presidentes,
como o pesquisador do Cebrap e ex-presidente da União Nacional
dos Estudantes, Vinicius Caldeira Brant (1985-1987/1987-1989),
o professor da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, Luciano A. Prates Junqueira (1989-1992), a socióloga
da Fundap, Zoara Failla (1992-1995), o sociólogo da Companhia
Energética de São Paulo, Carlos Roberto Jordon (1995-1998),
o sociólogo, professor e pesquisador do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas, Paulo Roberto Martins (1998-2001/2001-2003).
A criação e construção do Sindicato
dos Sociólogos de São Paulo, não se dá de
maneira isolada. Não é uma questão local. É parte
de uma estratégia de organização nacional,
desencadeada pela ASB -Associação dos Sociólogos
do Brasil, entidade civil, fundada durante reunião da Sociedade
Brasileira Para o Progresso da Ciência em 1977, que refletindo
a conjuntura do país, define uma maior integração
dos sociólogos com outras categorias,com as lutas políticas,
populares e sindicais, e a constituição dos Sindicatos
de Sociólogos em todo o país.
Entre os dias 15 e 18 de setembro de 1981 é realizado o
III Congresso Nacional de Sociólogos, em Brasília,
promovido pela Associação dos Sociólogos do
Brasil em conjunto com as Associações de Sociólogos
existentes nos vários Estados. O congresso , cujo tema foi "Atuação
Profissional e Prática Política do Sociólogo",
pautou-se pelos debates sobre organização política
da categoria, participação na organização
e luta dos trabalhadores brasileiros.
Neste congresso nacional de sociólogos é aprovada
a criação de sindicatos de sociólogos. Assim
como no congresso de São Paulo, os sociólogos de
todo o país, aprovam a organização também
dos sociólogos em nível de sindicato. Os sociólogos,
a exemplo de outros profissionais liberais, passam a se organizar
através de duas entidades, sendo uma civil e outra sindical.
Muitas destas idéias eram resultado de discussões
nos fóruns e congressos de trabalhadores, como na CONCLAT.
Registre-se que os sociólogos através da Associação
Profissional dos Sociólogos do Estado de São Paulo,
entidade pré-sindical criada em 1o. de outubro de 1982,
como estágio obrigatório para a construção
do sindicato, participaram ativamente da construção
da Central Única dos Trabalhadores.
É bastante sentida a presença da Associação
Profissional dos Sociólogos durante o I Congresso da Classe
Trabalhadora, que ocorreu nos dias 21,22 e 23 de abril de 1983.
Neste congresso de trabalhadores é eleita uma comissão
sindical - pró-cut. Os sociólogos através
da Associação Profissional, participaram ativamente
da construção da Central Única dos Trabalhadores.
Em tempos mais recente, os sociólogos paulistas, e o Sindicato
dos Sociólogos do Estado de São Paulo de modo especial,
articulado com as diversas entidades representativas, têm
lutado pela inserção definitiva da disciplina de
Sociologia em todas as escolas de ensino do país, pela criação
dos conselhos regionais e federal, além de outras aspirações.
Nesta nova fase de organização, o Sindicato dos
Sociólogos do Estado de São Paulo, têm procurado
implementar ainda mais o debate, as discussões em busca
de caminhos que viabilizem uma perspectiva de superação
de entraves no mundo do trabalho, de afirmação e
inserção definitiva dos sociólogos no mercado
de trabalho.
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Sergio S. Mattos,50, é Sociólogo.
Licenciado e Bacharel em Ciências Sociais.Diretor da Associação
dos Sociólogos do Estado de São Paulo nas gestões
89/91 e 91/93. Secretário do Sindicato dos Sociólogos
do Estado de São Paulo- Gestão 93/95. Foi professor
de Sociologia e Sociologia da Educação em escola
da rede particular de ensino. É co-autor de "Sociólogos
e Sociologia:Breve Cronologia da História da Ciência,
da Organização Estadual e Nacional e da Profissionalização
no Brasil" (Cadernos da Federação Nacional
dos Sociólogos, no.1,março,1997).
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