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Custos
ecológicos da militarização
Paulo Roberto Martins
Sociólogo, Mestre em Desenvolvimento Agrícola
CPDA/UFRRJ, Doutor em Ciências Sociais IFCH/UNICAMP,
Pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas
do Est, de S. Paulo IPT, Presidente.
Do Sindicato dos Sociólogos do Estado de S. Paulo
SINSESP. Palestra proferida no Curso de Ciências
Sociais da UFRN no dia 4/4/2003
É
fato perfeitamente sabido que a guerra que hoje presenciamos
se da entre países que adotaram a forma capitalista
de organizarem a sociedade para produzir as mercadorias.
Mas as nações em conflito, embora capitalistas,
não são homogêneas, sob vários
aspectos, tais como, econômicos, políticos,
culturais, bélicos.
O ocidente, representado pelo USA e UK, já se
colocaram como o lado do bem, taxando o oriente, representado
pelo Iraque, como o lado do mal. Como bem salienta o
sociólogo português BoaVentura de Souza
Santos em seu artigo “Suicídio Coletivo”
(Folha de S. Paulo 28/3/03, p. A3) utilizando Franz
Hinkelammert “o ocidente tem recorrentemente caído
na ilusão de tentar salvar a humanidade através
da destruição de parte dela. Trata-se
de uma destruição sálvica e sacrificial,
cometida em nome da necessidade de concretizar radicalmente
todas as possibilidades abertas por uma realidade social
e política sobre a qual supõe Ter um poder
total.”
Diante
disto qual a questão que Boaventura nos coloca?
Para ele a questão e sabermos se “esta
em curso uma nova uma nova ilusão genocida e
sacrificial e qual seu tamanho? Cabe sobre tudo perguntar
se a nova ilusão não anunciara a radicalização
e a perversão última da ilusão
ocidental: destruir toda a humanidade com a ilusão
de a salvar. Se assim for, trajar-se-á de uma
radicalização do mesmo tipo da que, por
razões muito diferentes, há muito vem
sendo denunciada pelo movimento ecológico”
Encerrando por ora a contribuição de Boaventura,
aqui começamos a nossa contribuição.
A questão de fundo a ser colocada para que possamos
entender os custos ambientais da militarização
e a seguinte: É o capitalismo sustentável?
Vamos
procurar responder a esta questão refletindo
sobre as relações entre a nação
que a promove esta guerra, a sua indústria bélica
e o meio ambiente em termos do planeta que habitamos.
Há
inúmeros indicadores que demonstram o quanto
a sociedade americana tem um estilo de vida, um padrão
de consumo, que é insustentável do ponto
de vista de torna-lo acessível ao conjunto da
população mundial. Um exemplo basta. Um
dos ícones da nossa sociedade de consumo e o
automóvel. Nos USA, de cada dois americanos um
tem carro. Este padrão de consumo não
é possível ser generalizado ao conjunto
dos habitantes da terra, pois não há recursos
naturais para tanto. Portanto, os recursos naturais
são escassos!
Por
serem escassos para a manutenção deste
padrão de consumo americano e que toma corpo
a questão militar. Quando a coerção
econômica não mais assegura este suprimento
dos recursos naturais, entra em campo a coerção
militar! Isto se da justamente para “proteger
a o estilo de vida ecologicamente destrutiva da sociedade
americana e também proteger os interesses das
corporações transnacionais americanas.
O uso de poderia bélico americano te sido para
assegurar o acesso aos recursos naturais e aos mercados”.
Para
a colocação dos seus produtos. Portanto
a produção de produtos bélicos
é essencial para manter o padrão insustentável
de produção e consumo interno no USA e
manter também as insustentável superprodução
de mercadorias. A economia americana é completamente
dependente do imperialismo ecológico para a sua
sobrevivência. O petróleo é apenas
o exemplo mais marcante da dependência de expropriação
de recursos naturais de outras nações.
Quando outras nações preferem dar outros
destinos a seus recursos naturais que não sejam
exporta-los par USA (uso interno) ou colocar preços
maiores (mudar o padrão das relações
de troca) alterando o lucro dos transnacionais americanas,
isto e entendido como uma ameaça a economia americana.”
Mas
a coerção militar se configura, se materializa
na produção e uso das dos mais diversos
tipos de armas químicas, biológicas, nucleares
e convencionais em que o USA é líder na
produção. Para tanto.Diversos ecossistemas
são destruídos varias vezes e em diferentes
níveis tais como: na extração,
produção, distribuição,
testes, transportes, armazenamento, implementação,
reconstrução. Portanto, a militarização
permanece sendo a única forma de produção
humana cujo objetivo é destruir o meio ambiente
e suas diversas formas de vida, bem como as formas de
produção mais social e ecologicamente
benigna para a humanidade e o planeta. É, portanto
o mais social e ecologicamente regressivo empreendimento
no qual o USA este profundamente envolvido nos últimos
50 anos.
A
maioria desta produção bélica esta
sob o manto de atividades secretas. As populações
que moram no entorno das industrias bélicas,
bem como seus trabalhadores, estão sendo constantemente
contaminados e destituídos de seus direitos de
saberem o porque desta contaminação, seus
níveis, bem como, as razões da degradação/poluição
do meio ambiente em que vivem e trabalham.
Mesmo
nos USA, a legislação vigente chamada
de RIGHT TO KNOW é permanentemente suprimida
na pratica quando se trata das atividades das industrias
bélica, por se tratar de caso de segurança
nacional.
Assim
sendo, podemos afirmar que a manutenção
do estilo americano de vida, que impõe o imperialismo
ecológico, tem como primeira vitima seus trabalhadores,
a população pobre, imigrante, negra, que
mora nos locais poluídos/degradados por estas
atividades, configurando assim também uma injustiça
ambiental no interior da sociedade america.
Nestas
circunstâncias dois cenários se colocam.
Se produzem toda estas armas e não se usa. Ficamos
então com o problema da disposição
e armazenagem por longo período destas armas
químicas, biológicas e nucleares. Os riscos
ambientais e de contaminação humana proveniente
de armas de destruição em massa, de nucleares
a gases que atacam o sistema nervoso são grandes.
Mesmo processos de vitrificação in situ
e incineração de gases apresentam grandes
possibilidades de contaminação.
O pior cenário e aquele que já estamos.
As armas são usadas. Neste caso a produção
militar destrói outros ambientes para alem dos
USA, destrói também a força de
trabalho e capital. Resultando na pior forma social
e ecológica de destruição. Novamente
a combinação da guerra e seus efeitos
ambientais irão proporcionar a nova avalanche
de refugiados, excluídos e deserdados de seus
locais de moradia e trabalho. Certamente os locais contaminados
não poderão ser por muito tempo habitados
o que transforma estas áreas em locais impróprios
para qualquer forma de vida.
E
tudo isto e feito com o dinheiro do contribuinte americano.
De cada dollar recolhido, pelo menos a metade é
destinada ao setor bélico. Claro que isto significa
menos dinheiro para as áreas de educação,
assistência social, saúde Portanto, este
processo significa que o produto do trabalho dos trabalhadores
é expropriado mediante uma redistribuição
negativa que favorece as corporações transnacionais
a fabricarem a guerra.
Instala-se,
portanto aquilo que Boaventura de Sousa Santos vem qualificar
como a versão atual da acumulação
primitiva. Esta consiste “na combinação
da globalização econômica neoliberal
com a globalização da guerra.” O
pressuposto disto é que não há
alternativa a este modelo de pensamento único
e que a eficiência de mercado deve ser levada
às ultimas conseqüências.
E as conseqüências ambientais da militarização
foram aqui demonstradas. Portanto, podemos retomar a
nossa questão central apresentada no inicio deste
texto. E’O CAPITALISMO SUSTENTÁVEL?
O
processo de produção de mercadorias (muitas
delas armas de destruição em massa) no
capitalismo proporciona a reprodução ampliada
do capital em que a natureza é entendida como
ilimitada e que o ciclo de reprodução
da natureza deve estar submetida ao ciclo de reprodução
do capital. Isto significa a degradação/poluição
dos ecossistemas e a exaustão dos recursos naturais.
Isto torna o capitalismo insustentável também
do ponto de vista ambiental. A guerra apenas torna mais
visível a os custos ambientais desta insustentabilidade.
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